A provedora britânica de serviços em nuvem Civo anunciou um plano estratégico para construir 40 datacenters de borda (edge) em todo o Reino Unido. O objetivo é aproximar os serviços de inteligência artificial (IA) de seus clientes, garantindo a soberania dos dados e a conformidade com leis locais. O primeiro desses centros de dados está previsto para ser inaugurado em Hertfordshire em março de 2027, com uma capacidade inicial de 8 MW, com potencial de expansão para 38 MW.

Soberania como prioridade estratégica

A iniciativa da Civo responde a uma preocupação crescente entre líderes de TI no Reino Unido. Segundo o CEO da empresa, Mark Boost, pesquisas internas revelam que a soberania da IA, ou seja, o controle sobre onde e como os dados são processados e armazenados, subiu de 61% para 73% como prioridade estratégica nos últimos dois anos. Essa tendência é vista não apenas como um modismo, mas como um ponto de inflexão, impulsionado pela desconfiança em relação a provedores de nuvem controlados pelos EUA, como AWS, Microsoft Azure e Google Cloud, que atendem a mais de 80% das empresas britânicas que utilizam serviços em nuvem.

Desafios da dependência estrangeira

O principal argumento da Civo reside na legislação americana, como o CLOUD Act, que permite às autoridades dos EUA requisitar dados de empresas americanas, mesmo quando armazenados em datacenters fora do território americano. Boost enfatiza que a soberania de dados vai além da localização física, abrangendo quem detém e controla a informação. Em tempos de incerteza geopolítica, a preocupação com o chamado "digital kill switch" – a possibilidade de acesso a serviços de IA ser abruptamente suspenso – torna-se um fator decisivo. Um exemplo recente foi a suspensão temporária do acesso a modelos avançados da Anthropic devido a controles de exportação dos EUA, evidenciando a fragilidade dessa dependência.

Redução de latência e inovação em IA

Além da soberania, a estratégia de datacenters de borda da Civo visa reduzir a latência em aplicações de IA. A empresa argumenta que a proximidade física entre o usuário e o processamento de dados diminui o tempo de resposta em tarefas de inferência – a execução de modelos de IA treinados. A Nvidia estima que a inferência, que hoje representa cerca de 35% das cargas de trabalho de IA, pode chegar a 60-65% até 2030. A Civo planeja ser uma das primeiras no Reino Unido a oferecer a plataforma Vera Rubin da Nvidia, com capacidade de processamento de ponta, a partir de seu novo datacenter em Hertfordshire. A empresa já está aceitando pedidos, oferecendo preços a partir de US$ 10 por hora para acesso antecipado à plataforma Vera Rubin, além de capacidade em outras instâncias da Nvidia.

Expansão e metas de capacidade

A Civo já assegurou locais para mais cinco datacenters em Lancashire, Grande Manchester, Londres e Oxfordshire, com o objetivo de atingir 150 MW de capacidade total em três anos. A ambição de longo prazo é alcançar 1 GW de capacidade em todo o país, consolidando a infraestrutura britânica para IA. A empresa busca atrair clientes que valorizam a segurança e o controle sobre seus dados, posicionando-se como uma alternativa confiável aos gigantes da nuvem estrangeira.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register