A influente coleção de Anita e Chaim “Poju” Zabludowicz está sendo colocada à venda na Christie’s, em Londres, em um movimento que movimenta o mercado global de arte. A oferta inclui cerca de 100 obras, divididas em dois leilões, com estimativas de arrecadação que variam significativamente entre as peças de alto calibre e aquelas de mercados que perderam tração ao longo dos anos. Segundo a ARTnews, a decisão de venda é vista por observadores como um possível sinal de desilusão do casal com o ecossistema artístico atual.
O leilão inicial, realizado nesta semana, conta com nomes como Philip Guston e Damien Hirst, com estimativas de receita entre US$ 17 milhões e US$ 26 milhões. Um segundo lote, programado para encerrar em 30 de junho, foca em artistas cujas trajetórias de mercado arrefeceram, com projeções mais modestas. A venda ocorre em um momento de contração para o segmento de arte ultra-contemporânea, reforçando a percepção de que o casal busca uma saída estratégica do setor.
Pressões e o esgotamento de colecionadores
O debate central em torno da venda gira em torno da relação do casal com o cenário artístico internacional, frequentemente marcado por tensões políticas. O grupo “Boycott Divest Zabludowicz” tem sido um crítico vocal da atuação dos colecionadores, alegando que o casal apoia lobbies pró-Israel, o que gerou um ambiente de hostilidade. Fontes próximas aos Zabludowicz sugerem que o desgaste emocional decorrente dessas críticas foi um fator determinante para a decisão de liquidar parte do acervo.
Para muitos observadores do mercado, o caso Zabludowicz ilustra uma fragilidade crescente na relação entre grandes colecionadores e as instituições que sustentam suas carreiras e investimentos. Quando o suporte financeiro e a curadoria de um colecionador passam a ser lidos através de uma lente puramente política, a dinâmica de mercado pode sofrer rupturas irreversíveis. A saída, neste contexto, não é apenas financeira, mas uma resposta ao que descrevem como um ambiente de hostilidade permanente.
O legado de Tess Jaray
Enquanto o mercado avalia os impactos da venda da coleção Zabludowicz, o mundo das artes também presta homenagem à artista britânica Tess Jaray, falecida recentemente. Nascida em Viena e radicada em Londres, Jaray deixou uma marca indelével através de suas obras geométricas e intervenções públicas. Sua trajetória, marcada pelo exílio durante o período nazista, consolidou-se como uma das vozes mais consistentes da abstração europeia nas últimas décadas.
Jaray foi pioneira em sua atuação acadêmica, tornando-se a primeira mulher a lecionar na Slade School of Fine Art, onde permaneceu por mais de 30 anos. Sua dedicação ao trabalho era absoluta; relatos indicam que a artista mantinha sua rotina no estúdio até os últimos dias, trabalhando preferencialmente sob luz natural. Seu legado transcende as telas, integrando-se à arquitetura de museus e espaços urbanos ao redor do mundo, reafirmando a perenidade de sua visão artística.
Implicações para o ecossistema de arte
O movimento de venda dos Zabludowicz levanta questões profundas sobre a sustentabilidade de coleções privadas que se tornam alvos de ativismo. A tensão entre o mercado de arte e as pautas políticas globais sugere uma nova era de escrutínio para grandes colecionadores, onde a reputação pública e o engajamento político passam a ditar a viabilidade de longo prazo de um acervo. A Christie’s, por sua vez, mantém sua postura técnica, enfatizando o valor intrínseco das obras leiloadas.
Para os demais stakeholders, como galerias e instituições museológicas, a saída de um grande player como os Zabludowicz cria um vácuo de influência. A questão que permanece é se este movimento será isolado ou se servirá de precedente para outros colecionadores que enfrentam pressões semelhantes. A volatilidade do mercado de arte ultra-contemporânea, agravada pelo ativismo, sinaliza que o cenário para os próximos anos exige uma gestão de reputação cada vez mais complexa.
Perspectivas e incertezas
O futuro da coleção remanescente e a reação dos compradores aos lotes de menor liquidez serão indicadores importantes da saúde do mercado de arte contemporânea. A incerteza sobre como o mercado absorverá um volume tão expressivo de obras de uma única fonte permanece como um ponto de atenção para os próximos meses.
O mercado de arte segue, portanto, dividido entre a necessidade de liquidez financeira e as pressões ideológicas. A trajetória e resiliência de figuras como Tess Jaray e a saída corporativa dos Zabludowicz oferecem dois contrapontos distintos sobre a longevidade no mundo artístico: a persistência da criação técnica versus a volatilidade das alianças financeiras e políticas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





