O consumo global de álcool enfrenta uma trajetória de declínio persistente para a próxima década, desafiando a resiliência histórica de grandes conglomerados do setor. Segundo a consultoria especializada IWSR, o volume de vendas deve permanecer em queda até pelo menos 2031, com uma projeção de que, em 2035, o consumo total ainda esteja 1% abaixo dos níveis registrados no ano passado.
Este cenário de retração ocorre mesmo diante de um crescimento populacional que elevará em 9% o número de consumidores em idade legal no mesmo período. A análise indica que a mudança no comportamento do consumidor, impulsionada por uma consciência crescente sobre saúde e bem-estar, está redefinindo a relevância das categorias tradicionais de bebidas alcoólicas no mercado global.
Fatores de pressão sobre o setor
O boom de consumo observado logo após o período pandêmico parece ter se esgotado, dando lugar a uma realidade de maior cautela. Fabricantes como Diageo e Anheuser-Busch InBev, que detêm marcas globais como Johnnie Walker e Corona, enfrentam um ambiente de mercado marcado pela alta no custo de vida e, notadamente, pelo surgimento de novos medicamentos para perda de peso.
Estudos preliminares sugerem que tais tratamentos podem alterar os hábitos de consumo de substâncias, incluindo álcool, ao modificar a resposta do organismo e a própria vontade de beber. A combinação desses fatores cria um desafio existencial para empresas que, por décadas, basearam suas estratégias no crescimento constante de volume e na fidelidade às marcas tradicionais.
Dinâmicas de mercado e novos incentivos
A previsão da IWSR destaca que a queda no consumo não será uniforme. Enquanto mercados maduros como Estados Unidos e China devem registrar declínios superiores a 18% até 2035, outras regiões apresentam um cenário de expansão. A Índia, por exemplo, está em curso para se tornar o segundo maior mercado de bebidas do mundo até 2032, com uma projeção de crescimento de 38%.
Este deslocamento geográfico força as empresas a repensarem suas cadeias de suprimentos e estratégias de marketing. A necessidade de adaptação é urgente, uma vez que o consumidor atual demonstra preferência por alternativas que não se encaixam estritamente no tripé tradicional de destilados, cervejas e vinhos, abrindo espaço para segmentos como coquetéis em lata e bebidas de menor teor alcoólico.
Implicações para a indústria e stakeholders
Para investidores e reguladores, o movimento aponta para uma reavaliação dos ativos do setor. A queda nas avaliações de mercado desde 2023 reflete a percepção de que o modelo de negócio tradicional pode não ser suficiente para sustentar o valor das ações no longo prazo. O foco em inovação e diversificação de portfólio torna-se, portanto, uma questão de sobrevivência.
No Brasil, onde a cultura de consumo de bebidas alcoólicas é historicamente enraizada, as tendências globais costumam encontrar eco com algum atraso. A pressão regulatória por rótulos mais informativos e a crescente preocupação com o impacto do álcool na saúde podem acelerar mudanças no comportamento local, aproximando o mercado doméstico das dinâmicas observadas em países europeus e na América do Norte.
O horizonte de incertezas
A grande questão que permanece é se a indústria conseguirá se reinventar antes que a queda de volume se torne um declínio estrutural irreversível. A capacidade das empresas de absorverem as novas preferências dos consumidores, sem perder a margem de lucro, será o fiel da balança para a próxima década.
Observar como os grandes players reagirão à ascensão da Índia, do Vietnã e da Colômbia, enquanto tentam estancar a perda de relevância nos mercados centrais, será fundamental para entender o futuro das bebidas alcoólicas no mundo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





