A paisagem rural de West Virginia, com suas casas modestas, celeiro vermelho e um galpão que evoca cenários cinematográficos, serve de palco para o trabalho de Dollie Kyarn. Aos 26 anos, a fotógrafa, tin typist e escritora se dedica a capturar a intimidade de seus sujeitos e do ambiente que a cerca. Em sua propriedade, que abriga quatro construções distintas, a dualidade entre o rústico e o técnico se manifesta: em uma das casas, um fuzil AK-47 repousa sobre a mesa de centro; no galpão, mesas de madeira exibem placas de vidro e fluidos químicos para o desenvolvimento de chapas de vidro, um processo artesanal e complexo.

A Beleza do Processo Analógico em um Mundo Veloz

Kyarn se distingue por sua preferência por meios fotográficos vintage, como o processo de colódio úmido (wet plate), que utiliza chapas de vidro ou metal. Essa escolha a contrapõe à velocidade e à natureza efêmera da fotografia digital e das redes sociais. Ela descreve essa técnica como "a coisa mais bonita", apesar de sua falta de praticidade. A fotógrafa relata que, quando a logística do equipamento impede o uso de sua câmera de grande formato, ela recorre à fotografia em 35mm, como fez em recentes retratos de sua amiga Ethel Cain (Hayden Anhedonia) em um riacho. O objetivo é sempre preservar a espontaneidade e a autenticidade do momento, sem que o processo técnico interfira na conexão humana.

Retratos Íntimos e a Conexão com Ethel Cain

A relação de Kyarn com a artista Ethel Cain é central em sua obra. Após um período de afastamento e superação de vícios, as duas retomaram a amizade e uma colaboração artística intensa. Kyarn foi a responsável por fotografar o material promocional de projetos de Cain, como "Willoughby Tucker, I’ll Always Love You", e mais recentemente, um conjunto de retratos nus da artista em abril, que viralizaram. As imagens, que mostravam a genitália trans de Cain, foram removidas pela Meta após uma semana, mas geraram grande repercussão, incluindo ameaças de morte e mensagens de apoio de jovens mulheres trans. Kyarn vê essa exposição como uma forma de apresentar mulheres trans fora do contexto da pornografia, uma missão que a motiva a continuar explorando a nudez em seu trabalho, mesmo ciente dos riscos de censura e da atenção midiática que isso pode gerar.

A Influência de Appalachia e a Crítica ao Moderno

Nascida e criada em uma região marcada pela exploração e pela beleza agreste, Kyarn encontra em Appalachia um refúgio e uma fonte de inspiração. Ela expressa um profundo desgosto pelo "mundo moderno" e busca em seus cenários "atemporais" um contraponto à superficialidade digital. A fotógrafa confessa que, no passado, sentia-se desconfortável em pedir aos seus modelos que posassem nus, mas hoje isso se tornou uma extensão natural de sua prática. Para ela, a nudez em seus retratos não é inerentemente sexual, mas uma forma de expressão autêntica, especialmente quando ocorre em contextos íntimos e pessoais, como um mergulho em um riacho com uma amiga. Acredita que a região oferece o cenário perfeito para a introspecção e a criação artística que ela almeja.

Diálogos entre o Físico e o Virtual

Kyarn reconhece a dicotomia entre seu trabalho analógico e a presença digital de sua obra, com exposições em plataformas como Instagram, seu website e Substack. Ela valoriza a interação com os comentários nas redes sociais, que considera uma janela para as experiências das mulheres trans, embora também tenha que lidar com o discurso de ódio. O desejo de publicar um livro com seus trabalhos, focado em retratos de mulheres trans nuas, mas não pornográficos, reflete seu anseio por um registro físico e duradouro. Embora comparem seu trabalho a Nan Goldin e Sally Mann, Kyarn busca sua própria voz, focada em capturar a essência humana em um mundo cada vez mais desmaterializado, provando que a profundidade e a intimidade ainda encontram espaço, mesmo em meio à voragem digital.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · i-D