A economia russa, que sustentou o esforço bélico na Ucrânia por quatro anos através de injeções massivas de capital estatal, começa a apresentar sinais claros de exaustão. Segundo um relatório recente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), o modelo de desenvolvimento adotado pelo Kremlin, apelidado de "keynesianismo militar", atingiu um ponto de inflexão crítico onde os custos de manter a máquina de guerra superam os benefícios econômicos internos.
Embora o Produto Interno Bruto (PIB) tenha se mantido estável e o desemprego tenha caído durante o período de conflito, a realidade por trás desses números revela uma dependência perigosa dos gastos estatais. O Estado injetou recursos equivalentes a mais de 10% do PIB no setor industrial voltado para a defesa entre 2022 e 2024, criando uma economia artificialmente inflada que agora enfrenta a pressão de reservas fiscais em declínio e receitas de energia em queda.
O modelo de keynesianismo militar
A estratégia russa baseou-se na premissa de que o governo poderia atuar como o principal motor econômico, compensando as sanções ocidentais através da mobilização da base industrial e tecnológica para o front. Esse mecanismo funcionou enquanto a receita de petróleo e gás garantia o fluxo de caixa, permitindo ao governo financiar não apenas a produção militar, mas também pensões e pagamentos diretos a soldados e suas famílias, mantendo a demanda interna aquecida.
Contudo, a eficácia desse modelo está diretamente ligada à disponibilidade de capital. Com o aumento dos custos da guerra e a necessidade de compensar as perdas humanas — estimadas em centenas de milhares de baixas —, o orçamento federal passou a sofrer uma pressão sem precedentes. A dependência de setores específicos vinculados à defesa criou uma economia de mão única, onde o crescimento não é impulsionado pela produtividade ou inovação, mas pela necessidade constante de reposição de material bélico.
Mecanismos de exaustão fiscal
O esgotamento da "economia de esteroides" russa é evidenciado pela queda nas receitas de energia, que representaram apenas 23% da receita federal em 2025, o menor patamar em duas décadas. A resposta do Kremlin para mitigar esse desequilíbrio tem sido o aumento da carga tributária, incluindo a elevação do imposto sobre valor agregado (IVA) de 20% para 22%, uma medida que gera insatisfação na população russa que já lida com as consequências de uma economia estagnada.
Além disso, a infraestrutura energética tem sido alvo recorrente de ataques, reduzindo a capacidade de exportação russa e limitando a eficácia da "frota sombra" de petroleiros utilizada para evadir sanções. O ciclo de gastos públicos que antes sustentava o crescimento tornou-se, na prática, um mecanismo de manutenção de um status quo que, no campo de batalha, tem resultado em avanços mínimos ou perdas territoriais concretas.
Implicações para o cenário global
A análise do CSIS sugere que a Rússia se encontra em um abismo econômico, político e militar. Para os países do Ocidente, o cenário abre uma janela de oportunidade para intensificar a pressão econômica, focando especialmente nas brechas que permitem a venda de petróleo não marcado. A falha em exercer uma pressão mais coordenada, segundo os pesquisadores, permite que a Rússia continue financiando um conflito que se tornou insustentável a longo prazo.
Para o ecossistema global, o caso russo serve como um estudo de caso sobre os limites da autarquia em tempos de guerra. Enquanto Pequim observou o modelo de Putin como uma possível estratégia de proteção contra sanções, a deterioração atual sugere que a militarização excessiva da economia carrega riscos estruturais que podem comprometer a estabilidade de qualquer nação sob pressão geopolítica prolongada.
Perspectivas e incertezas
O que permanece incerto é a capacidade de adaptação do regime diante de um cenário de contração fiscal e insatisfação social crescente. A resiliência russa, até aqui subestimada por muitos analistas, enfrenta agora uma prova de estresse que não depende apenas da vontade política, mas da viabilidade de seus ativos remanescentes.
Observar como o governo russo gerenciará a transição entre o financiamento bélico e a necessidade de manter a estabilidade econômica interna será o ponto focal nos próximos trimestres. A questão central é se o custo da manutenção do conflito forçará um ajuste drástico na postura militar ou se a economia russa conseguirá suportar o peso da própria estratégia de guerra.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





