Em 2013, pesquisadores do MIT implantaram com sucesso uma memória falsa em camundongos, fazendo-os sentir medo de um choque que nunca receberam. Cinco anos depois, cientistas da USC relataram uma melhora de até 37% na performance de memória de pacientes com epilepsia ao estimular eletricamente seus cérebros. Esses avanços movem o conceito de implantar conhecimento — antes restrito a ficções como Neuromancer de William Gibson — do campo da fantasia para o da possibilidade empírica.
A questão, contudo, transcende a viabilidade técnica. Se fosse possível fazer o download de um curso de "Bioquímica I" diretamente no cérebro, com um índice de erro menor que o de qualquer universidade, o resultado seria conhecimento? A crença seria verdadeira e estável, mas o sujeito não teria lido livros, visto evidências ou assistido a aulas. A análise aqui não é sobre se podemos, mas sobre o que significaria se pudéssemos. É um problema fundamentalmente epistemológico: o que, afinal, constitui o saber?
O problema da justificação
Na filosofia, o conhecimento é classicamente definido como uma "crença verdadeira justificada". A mera posse de uma crença verdadeira não é suficiente. O filósofo Alvin Plantinga propôs um experimento mental: imagine uma lesão cerebral que, entre outros efeitos, causa na vítima a crença de que ela tem uma lesão cerebral. A crença é verdadeira, mas quase nenhum epistemólogo diria que a vítima sabe que tem a lesão. A origem da crença é uma patologia, um defeito no sistema, não um processo de justificação válido.
Essa linha de raciocínio, conhecida como "confiabilismo" (reliabilism), argumenta que a justificação deriva de um processo confiável de formação de crenças. Aqui, o paralelo com o download cerebral se torna complexo. Diferente da lesão, um procedimento de implante de conhecimento seria desenhado para ser extremamente confiável, talvez mais que a memória humana ou o sistema educacional. Se a fonte do saber é um processo com curadoria de especialistas e erro estatisticamente ínfimo, a objeção da "patologia" perde força. O processo é confiável, a crença é verdadeira. Onde, então, reside o problema?
Agência, acaso e o fator humano
Outros experimentos de pensamento exploram a falta de agência do sujeito. Considere o caso de Norman, um clarividente proposto por Laurence BonJour, que é 100% preciso, mas não tem nenhuma evidência de que seu poder é real. Suas crenças são verdadeiras e vêm de uma fonte confiável (sua clarividência), mas ele não tem motivos para confiar nelas. Ou o personagem Truetemp de Keith Lehrer, que tem um termômetro implantado em sua cabeça sem seu conhecimento e passa a ter crenças precisas sobre a temperatura, mas sem saber por quê. Em ambos os casos, falta um endosso consciente do processo.
Contudo, uma pessoa que opta por um "download de conhecimento" não se encaixa nesses cenários. Ela escolhe o procedimento, conhece a confiabilidade documentada da fonte e pode aplicar as novas proposições de forma coerente. Não há alienação, como em Truetemp, nem um poder misterioso, como o de Norman. Tampouco se aplicam os famosos "casos Gettier", que envolvem sorte epistêmica ou inferências a partir de premissas falsas. O processo de implante seria determinístico, não acidental. Os quebra-cabeças tradicionais da epistemologia parecem insuficientes para invalidar esse novo tipo de saber.
Se os critérios de justificação, confiabilidade e agência são satisfeitos, talvez a resistência em chamar o conhecimento implantado de "conhecimento" resida em outro lugar. A questão se desloca da origem da crença para a relação do sujeito com ela. A tecnologia nos força a perguntar se o saber é apenas sobre ter a informação correta ou se envolve intrinsecamente o processo de aquisição, a luta, a dúvida e a integração pessoal da experiência. O desafio não é apenas técnico, mas existencial.
Com reportagem de Brazil Valley
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