O BFI London Film Festival, mesmo sob o brilho das grandes produções e de diretores consagrados, guarda em suas entranhas um universo de descobertas para o espectador atento. Em 2026, o festival apresentou um total de 251 títulos, mas foi nas margens, longe dos tapetes vermelhos, que se aninharam as obras mais radicais, urgentes e inesperadas. O cinema, cada vez mais, se posiciona como um porta-voz para vozes marginalizadas e um espaço para formas de expressão esotéricas e experimentais. O festival, com suas mostras dedicadas ao avant-garde como a ‘Experimenta’, continua a ser um palco vital para essa vanguarda, premiando talentos que fogem do convencional.
Věra Chytilová e a Sinfonia Urbana
Em meio a retrospectivas e novas obras, uma restauração de "Panelstory, or How a Housing Development is Born", da icônica Věra Chytilová, emerge como um achado. Conhecida pelo cultuado "Daisies" (1966), a cineasta tcheca, aqui, mergulha em um melodrama feminista e bizarro, focado em um grupo de donas de casa nos anos 70. Utilizando a liminaridade e o jazz, Chytilová constrói uma sinfonia urbana singular, retratando a sobrevivência em um ambiente de concreto e a fragilidade da vida sob o regime soviético. É um olhar que resgata a força de uma artista que sempre desafiou as convenções, mostrando que sua visão permanece relevante.
Mark Cousins e a Memória do Documentário
Mark Cousins, figura prolífica no universo do cinema, apresenta um fragmento de sua nova série de 16 partes sobre a história global do documentário. Seu ensaio dos anos 90, exibido no festival, é um tesouro de imagens que abrangem desde os microcosmos de Claude Nuridsany e o estilo poético de Agnès Varda, até os registros viscerais de conflitos em "The Death of Yugoslavia". A narração lírica de Cousins guia o espectador por uma década de memórias, subvertendo narrativas ocidentais e celebrando a capacidade única do cinema de evocar o que a humanidade prefere esquecer. É um convite à reflexão sobre o poder da imagem e da memória.
Theo Rollason e o Legado de Jarman
"Queer Edward II", do diretor londrino Theo Rollason, é uma celebração vibrante do cinema de Derek Jarman e do ativismo queer. O documentário, que já conquistou o Queer Lion em Veneza, utiliza um acervo inédito de filmagens de Seamus McGarvey para construir um retrato íntimo da produção de "Edward II". O filme vai além dos bastidores, explorando o contexto político e social da época, com participações de Tilda Swinton e Annie Lennox. É uma obra hilária, perspicaz e comovente, que não apenas restaura o espírito de Jarman, mas também serve como um lembrete pungente do trabalho ainda a ser feito em prol da comunidade LGBTQIA+.
Mohanad Yaqubi e a Resistência Palestina
Mohanad Yaqubi, em "Revolutionaries Never Die", homenageia a documentarista Jocelyn Saab, utilizando correspondências por e-mail e 115 rolos de material analógico não editado. O filme aborda o impacto da guerra no Líbano, Palestina e Irã, questionando como o cinema pode nos aproximar ou distanciar da realidade. Ao invés de focar em imagens chocantes, Yaqubi explora como o conflito se manifesta no cotidiano, nos rituais e nos hábitos. As cenas de crianças brincando com gravetos na praia, sonhando com armas, ou um homem solitário em uma rua poeirenta, criam uma atmosfera densa e reflexiva. É um tributo poderoso a uma voz seminal do cinema militante.
Perguntas em Aberto no Cinema Experimental
O festival também destacou "Masao Adachi Takes a Passport Photo", de Kamal Aljafari, um curta que acompanha o diretor japonês Masao Adachi em um ato banal. A obra, ao mesmo tempo doce e politicamente esclarecedora, questiona o que resta após a censura, a retrospectiva e a revolução para um cineasta bem-sucedido. Em "At Night", Beatrice Gibson, premiada como Melhor Diretora Emergente em Locarno, apresenta um conto diarístico imerso em sintetizadores e na atmosfera parisiense. Inspirada pela literatura de vanguarda, a obra explora temas como sexo, desejo e maternidade, tecendo uma narrativa que ecoa Akerman e Vermette, convidando o espectador a contemplar as nuances da experiência feminina. Essas obras, em sua diversidade e ousadia, deixam o público com a sensação de que o cinema, em suas formas mais radicais, ainda tem muito a dizer e a provocar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





