A Flixbus, gigante alemã de transporte rodoviário de passageiros, intensifica a pressão sobre o ministro espanhol de Transportes e Mobilidade Sustentável, Óscar Puente. A companhia exige que o ministro apresente justificativas concretas, para além de declarações em redes sociais, sobre a decisão do governo espanhol de barrar sua atuação no transporte de passageiros entre localidades dentro da Espanha. Essa prática, conhecida como cabotagem, é permitida pela legislação europeia e visa otimizar o uso de rotas internacionais já existentes.

Pablo Pastega, vice-presidente da FlixBus para Iberia e Sudamérica, ironizou a postura de Puente, afirmando que o ministro "deve demonstrar" suas razões, e não apenas "com tuítes". As declarações surgem após Puente acusar a Flixbus de tentar "fazer trampas" e "distorcer" o modelo de concessões espanhol em entrevista recente. A disputa central reside na interpretação e aplicação das regras de transporte na Espanha, onde o governo argumenta que permitir o cabotagem prejudicaria as empresas que operam sob contratos de concessão pública.

O Cerco Regulatório à Flixbus na Espanha

A Espanha tem se posicionado de forma contrária à expansão do cabotagem por empresas como a Flixbus, alegando que o modelo de concessões públicas vigente no país, que envolve licitações para operar rotas específicas, seria desestabilizado. O governo defende que permitir que empresas internacionais realizem transporte interno, mesmo que como parte de uma rota europeia, violaria os acordos firmados com as concessionárias locais. Um exemplo emblemático dessa tensão é o processo judicial em curso no Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), iniciado pela Comissão Europeia contra a Espanha. A disputa foi desencadeada pela negativa espanhola em autorizar um serviço da Flixbus entre Trier, na Alemanha, e Madrid, que incluía a possibilidade de transportar passageiros entre Madrid e Barcelona — uma rota já operada pela Alsa.

O cenário regulatório se complicou ainda mais com a adesão do Parlamento Europeu e do Conselho da União Europeia ao processo em defesa da Comissão Europeia. A patronal de pequenas e médias empresas de ônibus, Direbús, e a própria Flixbus também obtiveram permissão para se manifestar no caso. Adicionalmente, uma nova concessão do Ministério para a rota Madrid-Barcelona foi suspensa por vias judiciais, devido a recursos que contestam a exclusão explícita do cabotagem e levantam questões sobre a transparência de ajudas estatais à empresa vencedora. Embora a lei espanhola preveja a possibilidade de rejeitar o cabotagem por motivos de viabilidade econômica de concessões ou por coesão social e territorial, a Comissão Europeia já rejeitou esses argumentos como justificativa para a proibição.

As Vantagens do Cabotagem Segundo a Flixbus

A Flixbus argumenta que o modelo de cabotagem, tal como regulado pela União Europeia, representaria um complemento valioso para a mobilidade na Espanha, sem a necessidade de subsídios públicos. A empresa sustenta que essa prática otimizaria o uso de seus recursos, aproveitando a capacidade ociosa de ônibus que já circulam em rotas internacionais. A companhia vê no cabotagem uma solução para déficits de conectividade territorial, unindo capitais de província sem ligações diretas, como Valência e Badajoz, e fortalecendo a coesão em regiões fronteiriças com Portugal. A abertura do mercado, segundo a Flixbus, estimularia a concorrência e poderia reduzir os preços das passagens, citando como exemplo o contraste entre uma viagem de Madrid a Lisboa por menos de 15 euros em seus ônibus e uma viagem de Madrid a Badajoz pelo sistema de concessão, que custaria quase 50 euros.

Implicações para o Mercado e o Futuro da Mobilidade

A insistência da Espanha em restringir o cabotagem levanta questões sobre o compromisso do país com a livre circulação de serviços dentro do mercado único europeu. Para os consumidores, a proibição significa menos opções e, potencialmente, preços mais altos em rotas que poderiam ser mais eficientes. Para as empresas de transporte, a decisão cria um ambiente de incerteza regulatória e um campo de batalha legal que pode se estender por anos. A postura da Espanha pode servir de precedente para outros países que buscam proteger seus modelos de transporte nacionais, gerando um efeito cascata em toda a Europa. A Comissão Europeia, por sua vez, demonstra determinação em garantir a aplicação uniforme das regras do bloco, buscando evitar que barreiras nacionais restrinjam a concorrência e a inovação no setor de mobilidade.

Perguntas em Aberto e o Cenário Futuro

O desfecho da disputa judicial entre a Espanha e a Comissão Europeia é crucial para definir o futuro da Flixbus e de outras empresas que buscam operar serviços de cabotagem na Europa. Resta saber se o TJUE dará ganho de causa à Comissão, forçando a Espanha a rever sua legislação, ou se o tribunal validará os argumentos espanhóis de proteção ao modelo de concessões. A posição do ministro Puente, ainda que firme em suas declarações públicas e em sua defesa do modelo nacional, precisa ser detalhada e fundamentada para convencer não apenas a Flixbus, mas também as instâncias europeias e a opinião pública. A forma como essa questão for resolvida impactará diretamente a paisagem do transporte rodoviário de passageiros em toda a Europa.

A Flixbus, que celebra uma década de operações na Espanha conectando 51 cidades europeias com parceiros locais e gerando centenas de empregos, vê sua expansão doméstica freada por um impasse regulatório. A companhia espera que a resolução deste conflito traga maior clareza e previsibilidade para o setor.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España