A preferência do consumidor mexicano por embalagens maiores, como a garrafa de três litros de Coca-Cola, tem se mostrado uma faca de dois gumes para as engarrafadoras. Embora esses formatos ajudem a sustentar o volume de vendas em um cenário de consumo restrito e inflação elevada, eles também exercem pressão sobre a rentabilidade, segundo revela um relatório da Expansión MX.

O cenário econômico no México tem levado os consumidores a buscarem alternativas para otimizar seus gastos sem abrir mão de produtos de marcas consolidadas. Nesse contexto, as apresentações familiares, como a garrafa de três litros, ganham espaço. Ian Craig, diretor-geral da Coca-Cola FEMSA, destacou que o desempenho dessas embalagens no país superou as expectativas da companhia no terceiro trimestre de 2026, impulsionando os volumes de forma significativa. No entanto, essa popularidade vem acompanhada de desafios: "Isso ajudou em termos de escala do nosso negócio, mas também exerceu muita pressão em termos de rentabilidade", admitiu Craig, sinalizando que a estratégia de precificação e promoções se tornou mais complexa.

O dilema da embalagem familiar

A dinâmica de mercado no México tem forçado as engarrafadoras a equilibrarem a necessidade de defender o volume de vendas com a manutenção da lucratividade. As apresentações familiares, por oferecerem um custo por litro menor ao consumidor, tendem a gerar menos receita por unidade de volume em comparação com formatos menores. Isso significa que, para compensar a queda na receita média, as empresas precisam buscar eficiências operacionais e ajustar suas estratégias comerciais. A Coca-Cola FEMSA, por exemplo, tem investido em sua cadeia de suprimentos, capacidades e tecnologia para lidar com essa demanda crescente e suas implicações financeiras.

Impacto do IEPS e custos crescentes

A ascensão das embalagens maiores ocorre em um momento particularmente desafiador para as engarrafadoras. O Imposto Especial sobre Produção e Serviços (IEPS) sobre bebidas açucaradas continua a impactar os preços ao consumidor. Craig mencionou que o primeiro semestre de 2026 foi marcado pelo impacto do imposto, com uma recuperação gradual observada a partir de julho. Além da pressão fiscal, os custos trabalhistas também têm aumentado, com reajustes no salário mínimo que repercutem em toda a estrutura salarial da empresa. A expectativa é que 2027 traga um cenário operacional mais normalizado, sem os impactos extraordinários de ajustes fiscais e reações do consumidor vistos recentemente.

Estratégias de adaptação e gestão de receita

O desafio de manter a rentabilidade diante do aumento de custos e da mudança nas preferências do consumidor não é exclusivo da Coca-Cola FEMSA. A Arca Continental, outra grande engarrafadora da marca no México, também tem implementado medidas para mitigar esses efeitos. A companhia ajustou seus preços em 3.5% no terceiro trimestre e antecipa que os reajustes continuarão acima da inflação. A estratégia da Arca Continental envolve uma gestão de receitas mais ativa, combinando promoções, embalagens retornáveis e diferentes formatos para atender às condições de consumo. A empresa iniciou iniciativas de gestão de receita em agosto e planejava novas ações para novembro, visando compensar os custos e recuperar margens.

Implicações e o futuro do mercado mexicano

Os resultados financeiros do terceiro trimestre de 2026 refletem a capacidade de ambas as companhias em crescer em suas operações mexicanas, apesar das diferenças em seus desempenhos financeiros. A Arca Continental reportou um aumento de 3.7% em suas vendas líquidas no México, enquanto a Coca-Cola FEMSA viu um crescimento de 4.2% em seu volume de vendas. Contudo, a utilidade operacional da Coca-Cola FEMSA na divisão México e América Central recuou 3.1%. A rede de engarrafadores da Coca-Cola no México, que inclui grupos como Bepensa e Corporación del Fuerte, enfrenta um cenário que exige flexibilidade e inovação contínua. A adaptação a um consumidor mais sensível a preços e a um ambiente regulatório complexo será crucial para o sucesso futuro.

O futuro próximo para as engarrafadoras no México parece ser de otimização constante. A capacidade de inovar em formatos, gerenciar custos e ajustar estratégias de precificação e promoção será determinante para navegar em um mercado que valoriza tanto a quantidade quanto a acessibilidade, sem comprometer a sustentabilidade do negócio a longo prazo. A garrafa de três litros, embora um alívio para o bolso do consumidor, é um símbolo das complexas negociações que moldam o setor.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX