A economia da inteligência artificial apresenta um paradoxo estatístico que oculta uma realidade preocupante para a Geração Z. Segundo relatório recente do Goldman Sachs, a taxa de eliminação de empregos por IA caiu de 16 mil para 11 mil por mês. Contudo, essa melhora aparente não reflete uma desaceleração na automação de tarefas de escritório, mas sim um desvio causado pelo boom na construção de data centers físicos, que adicionou 212 mil postos de trabalho desde 2022.

Para o Goldman Sachs, o mercado de trabalho atravessa uma fase de transição onde a demanda por infraestrutura compensa a perda de vagas em setores como marketing, design e atendimento ao cliente. O grande desafio estrutural é que essa compensação mostra-se essencialmente temporária, criando um abismo de empregabilidade para jovens profissionais que buscam ingressar no mercado de trabalho em funções que a tecnologia já absorveu.

O mito da estabilidade nos canteiros de obra

A corrida pela infraestrutura de IA, essencial para sustentar os modelos de linguagem, impulsiona a contratação de eletricistas, engenheiros de climatização e operários da construção civil. No entanto, especialistas alertam que a natureza desses postos é passageira. Uma vez concluída a instalação física dos centros de dados, a necessidade operacional é drasticamente reduzida, exigindo apenas equipes enxutas de manutenção e monitoramento técnico.

Estimativas do American Edge Project sugerem que, embora o setor gere milhões de vagas temporárias, o número de posições permanentes é uma fração ínfima do total. Isso cria um cenário de falsa resiliência no mercado de trabalho, onde o crescimento do setor de construção mascara a erosão contínua das carreiras de colarinho branco que tradicionalmente serviam como porta de entrada para a força de trabalho jovem.

A desproporção na produtividade

A adoção de IA nas empresas, que hoje atinge cerca de 19,5% dos estabelecimentos americanos segundo o Censo, não ocorre de maneira uniforme. Estudos compilados pelo Goldman Sachs indicam um ganho médio de produtividade de 23% com o uso de IA generativa. Esse ganho, porém, beneficia desproporcionalmente trabalhadores seniores, que possuem o repertório necessário para orquestrar a tecnologia, enquanto as tarefas de base — justamente as ocupadas por iniciantes — são automatizadas.

O resultado é uma correlação crescente entre a adoção de IA e o desemprego entre trabalhadores com menos de 30 anos. À medida que as empresas integram a IA em funções rotineiras, a necessidade de contratar talentos juniores diminui, fechando a porta para a curva de aprendizado que define o início da vida profissional na economia moderna.

Tensões no mercado de trabalho

O impacto para os stakeholders é distinto: enquanto reguladores observam a resiliência dos dados macroeconômicos, empresas buscam eficiência operacional, e a Geração Z enfrenta um mercado cada vez mais hostil ao desenvolvimento de competências básicas. A pressão por resultados trimestrais, evidenciada pelo aumento de menções à IA em teleconferências de lucros do Russell 3000, sugere que a substituição de mão de obra não é um evento isolado, mas uma estratégia corporativa consolidada.

Para o Brasil, o reflexo desse movimento pode ser sentido na exportação de serviços e na digitalização de processos administrativos. A tendência de "dislocação ocupacional" mencionada pelo UBS indica que, no futuro próximo, o mercado de trabalho exigirá maior adaptabilidade, mas restará a dúvida sobre como as novas gerações desenvolverão as competências necessárias se os cargos de entrada forem eliminados pela automação.

O futuro da ocupação tecnológica

O cenário permanece incerto quanto à velocidade com que novos setores surgirão para absorver os profissionais deslocados pela IA. O que se observa é uma corrida entre a destruição de empregos por software e a criação de vagas em infraestrutura, com um horizonte de tempo limitado para a segunda categoria.

A questão central para os próximos anos não é apenas o desemprego cíclico, mas a mudança estrutural na forma como o conhecimento é acumulado e remunerado nas organizações. Acompanhar a evolução dos dados do Goldman Sachs será crucial para entender se a economia conseguirá, de fato, criar novas funções que justifiquem a descontinuidade das carreiras tradicionais.

Com reportagem de [Brazil Valley](/categoria/Inteligência Artificial)

Source · Fortune