Donald Trump, em sua promessa de financiar um novo salão de baile na Casa Branca sem o uso de dinheiro público, angariou compromissos de doação privada que somam US$ 333 milhões. Uma lista interna obtida pelo The Washington Post detalha a origem desses fundos, que incluem contribuições significativas de gigantes empresariais como Nvidia e Apple, bem como de grandes fortunas ligadas aos setores de telecomunicações, finanças e criptomoedas. Notavelmente, pelo menos US$ 77 milhões provêm de doadores que optaram por manter sua identidade em sigilo, um aspecto que adiciona uma camada de complexidade à operação.
A investigação, publicada em 15 de outubro, examina registros internos da campanha de arrecadação do projeto, revelando 67 doações superiores a US$ 10.000 até o final de setembro. Documentos complementares permitiram identificar doadores que solicitaram anonimato e reconstruir o contexto de algumas dessas contribuições. A dimensão econômica é considerável: mais de três quartos do montante total foram comprometidos em doações de pelo menos US$ 5 milhões. Empresas ou executivos com contratos governamentais durante o segundo mandato de Trump representam aproximadamente metade do total arrecadado, embora a investigação não estabeleça uma ligação direta entre essas doações e decisões governamentais favoráveis.
Conexões Corporativas e o Jogo do Anonimato
Os compromissos individuais mais expressivos identificados pelo The Washington Post alcançam US$ 25 milhões cada, com Nvidia, Apple, a família Adelson e Charles Ergen figurando entre os maiores doadores. A Nvidia, por exemplo, comprometeu sua contribuição em outubro de 2025, pouco depois de firmar um acordo para vender chips avançados à China, uma operação que gerou preocupações de segurança nacional. A empresa solicitou sigilo para sua doação, embora seu porta-voz, John Rizzo, tenha declarado ao jornal que o apoio à América é primordial e independente de interesses empresariais. A Apple, com interesses comerciais significativos junto à Administração Trump, como os relacionados a tarifas e produção industrial, também contribuiu com US$ 25 milhões, sem responder diretamente às perguntas do jornal. A família Adelson, conhecida por seu forte apoio ao Partido Republicano, e Charles Ergen, cofundador da Dish Network, igualaram essa contribuição.
Outras grandes companhias americanas também marcaram presença na lista. Microsoft e Palantir comprometeram US$ 10 milhões cada, enquanto Comcast contribuiu com US$ 7,5 milhões. Amazon, T-Mobile, Meta, Cisco e ServiceNow doaram US$ 5 milhões cada. No setor de criptomoedas, os compromissos ultrapassaram US$ 18 milhões, com destaque para os irmãos Winklevoss, cofundadores da Gemini, que doaram bitcoins avaliados em mais de US$ 5 milhões. Essa estrutura de financiamento, onde empresas com interesses comerciais ante o governo aportam quantias vultosas a um projeto presidencial, enquanto uma parte substancial dos doadores permanece oculta ao escrutínio público, levanta questões éticas e de transparência.
Cronologias Suspeitas: Ergen, Salesforce e Rocket
O caso de Charles Ergen oferece um exemplo notável. Ele comprometeu US$ 25 milhões em duas parcelas, solicitando anonimato. Meses antes, a Federal Communications Commission (FCC) havia iniciado uma investigação sobre a EchoStar, empresa de Ergen, por não cumprir compromissos de modernização de rede. Após uma reunião com Trump e o presidente da FCC, Brendan Carr, Ergen negociou a venda de parte de suas licenças à AT&T, operação que dependia de autorização regulatória. A investigação da FCC foi encerrada em setembro, pouco antes das doações de Ergen serem registradas, e a venda foi aprovada em maio de 2026. Embora a investigação não comprove influência direta das doações nas decisões regulatórias, a cronologia sugere uma coincidência temporal significativa entre as contribuições privadas, a investigação governamental e as aprovações necessárias para o negócio de Ergen.
Situação semelhante envolve a Salesforce, cujo CEO, Marc Benioff, comprometeu US$ 1 milhão após encontros com Trump. A empresa realizou outras duas doações de US$ 1 milhão. Entre essas contribuições e a aprovação de um contrato militar que pode chegar a US$ 5,6 bilhões até 2035, a cronologia é apertada. O Pentágono justificou a adjudicação pela falta de ofertas concorrentes. A ServiceNow também contribuiu com US$ 5 milhões, um mês após um acordo facilitado pela Administração Geral de Serviços para acesso a seu software de IA. A empresa alegou que as negociações eram anteriores à doação. A Rocket, por sua vez, comprometeu US$ 10 milhões três semanas após a aprovação federal para a aquisição da Mr. Cooper, uma operação hipotecária. A empresa negou qualquer relação, citando seu histórico de apoio a organizações sem fins lucrativos. A Comissão Federal de Comércio, contudo, apresentou uma ação contra a Redfin, ligada à Rocket, por práticas anticompetitivas dias após a doação.
Implicações para a Transparência e o Poder Público
A estrutura de financiamento, canalizada através do Trust for the National Mall, uma organização sem fins lucrativos, permite que os doadores mantenham o anonimato, conforme permitido por lei e acordado com a Casa Branca. Essa confidencialidade, embora comum em filantropia, levanta questionamentos quando o dinheiro se destina a um projeto presidencial e envolve empresas com interesses diretos junto ao governo. Legisladores democratas têm buscado informações detalhadas sem sucesso. A questão central não é apenas quem financia o salão de baile, mas o grau de transparência exigível quando grandes corporações, financiadoras de obras presidenciais, mantêm contratos públicos, dependem de aprovações regulatórias ou possuem outros interesses econômicos que são decididos pela mesma administração. A existência de fundos anônimos em projetos de grande envergadura levanta um debate sobre a influência corporativa e a integridade dos processos decisórios no poder público.
Os US$ 333 milhões arrecadados ainda estão abaixo da meta de US$ 400 milhões de Trump. É relevante notar que o custo estimado do projeto tem flutuado significativamente, de US$ 200 milhões inicialmente para US$ 600 milhões para um projeto mais amplo da ala leste, com a Casa Branca afirmando que fundos públicos cobrem apenas componentes de segurança. A investigação não comprova troca de favores, mas expõe uma rede de financiamento onde interesses corporativos e anonimato se entrelaçam com a gestão do poder. O salão de baile de Trump, mais do que uma obra arquitetônica, torna-se um palco para examinar os vínculos entre o ex-presidente e a elite empresarial, questionando a compatibilidade da filantropia privada com a transparência esperada na administração pública.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





