A guerra na Ucrânia, que se arrasta há meses, tem um impacto devastador que transcende os campos de batalha e a perda de vidas. Os ataques russos a centros de logística e armazéns em território ucraniano têm um efeito particularmente cruel sobre a produção cultural do país: a destruição em massa de livros. Relatos indicam que mais de 12 milhões de exemplares já foram perdidos, um número que representa uma parcela significativa da produção anual ucraniana, estimada entre 26 e 30 milhões de cópias.

O impacto da destruição

As consequências desses ataques são multifacetadas e profundas. Editoras ucranianas veem seus estoques, muitas vezes o resultado de anos de trabalho árduo, serem reduzidos a cinzas em questão de horas. Um exemplo citado é o de um amigo do autor, cujo romance de estreia, a primeira parte de uma trilogia de fantasia, estava prestes a ser publicado. A editora, que detinha 400 mil cópias de seu futuro livro, teve seu acervo destruído por um míssil russo. Esse tipo de perda não apenas adia lançamentos, mas também força editoras a reavaliar seus investimentos em novos autores, priorizando obras com vendas garantidas e menos experimentais.

Um golpe no mercado editorial e nos autores

A destruição de centros de distribuição afeta dezenas de editoras, grandes, pequenas e de nicho. Algumas perderam até 80% de seus livros em estoque. Para autores, a perda de tiragens significa a interrupção de sua fonte de renda. Se os direitos autorais esperados não se materializam devido à destruição dos livros, escritores são forçados a buscar outras formas de sustento, desviando tempo e energia da criação de novas obras. Essa fragilidade na cadeia logística, embora menos visível que a falta de produtos essenciais, quebra a continuidade da produção literária e cultural.

A cultura como alvo

Os ataques russos não se limitam a armazéns de livros. Alvos como instalações postais, onde obras de arte e materiais de construção também foram destruídos, indicam uma estratégia que visa desmantelar a infraestrutura civil e cultural da Ucrânia. A destruição de livros, em particular, pode ser vista como um ataque à identidade e à memória de uma nação. Em tempos de guerra, a literatura muitas vezes serve como um meio de resistência, de preservação da história e de expressão da resiliência. Ao destruir livros, a Rússia não apenas causa perdas econômicas, mas também tenta silenciar a voz ucraniana e apagar sua produção cultural.

Um futuro incerto para a literatura ucraniana

Diante desse cenário sombrio, o futuro da literatura ucraniana permanece incerto. A necessidade de sobrevivência pode levar a uma maior autocensura e a uma diminuição da diversidade literária, com menos espaço para autores estreantes e obras experimentais. A resiliência do povo ucraniano é notável, mas a constante ameaça e a exaustão física e mental impõem um fardo pesado. A literatura, que em tempos de guerra é um ato de resistência, agora luta para sobreviver à própria destruição física, com autores e editores tentando, a cada dia, reconstruir o que foi perdido e garantir que suas histórias alcancem seus leitores.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub