A percepção pública sobre o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) nos Estados Unidos demonstra um cenário de ambivalência, longe de um consenso claro entre euforia e pânico. Uma pesquisa diária, apelidada de "AI vibe check", conduzida por Jason Jones, cientista social computacional da Stony Brook University, revela que, embora a maioria dos americanos ainda apoie o avanço da IA, o sentimento de otimismo tem gradualmente diminuído desde fevereiro de 2024. O estudo, que coleta respostas de 11 americanos por dia a um custo de cerca de US$ 10, não possui a representatividade estatística de uma pesquisa nacional, mas oferece um termômetro interessante sobre a evolução do humor público.

O humor ambivalente da opinião pública

O principal achado do "AI vibe check" é a estabilidade relativa do sentimento. "A grande história aqui é que não se move muito", afirmou Jones à Business Insider. "Estou capturando o humor, e o humor é ambivalente e permaneceu ambivalente." Quando os dados são agrupados mensalmente, o apoio líquido ao desenvolvimento da IA se mantém positivo. No entanto, a intensidade desse apoio não é eufórica e mostra uma tendência de queda. Em abril de 2025, a média mensal atingiu um pico de 1,57 em uma escala de sete pontos, onde 1 significa "concordo um pouco". Já em 2026, a média caiu para 0,53, ainda acima do neutro, mas consideravelmente mais fria que nos anos anteriores. Jones já coletou mais de 10.300 respostas, o que permite observar essa dinâmica de longo prazo.

Preocupações mais palpáveis que o apocalipse

Paralelamente, uma pesquisa mais ampla realizada pela Politico e Public First com 2.064 adultos americanos indicou que 63% veem um risco moderado de a IA "destruir a humanidade". Além disso, 48% concordaram que "a IA já é boa o suficiente e deveríamos pausar o desenvolvimento para reduzir quaisquer riscos". Contudo, essa não é uma visão majoritária ou um consenso anti-IA. Trinta e um por cento dos entrevistados defendem que a IA deve continuar a ser desenvolvida por trazer "benefícios significativos", enquanto 22% se declaram indecisos. O cenário sugere uma complexidade que transcende a dicotomia "apocalipse ou boom" frequentemente debatida no Vale do Silício.

Foco em emprego, regulação e custos

As respostas abertas da pesquisa de Jones revelam que, embora preocupações com catástrofes existenciais e a corrida tecnológica com a China apareçam, elas não são o foco principal. Os temas mais recorrentes e dominantes são mais imediatos e tangíveis: empregos, utilidade da tecnologia, necessidade de regulação, incentivos corporativos, privacidade e os custos ambientais da expansão da IA. Daniel Schiff, professor de ciência política da Purdue University, sugere que cenários como hackers atacando infraestruturas críticas ou a rivalidade com a China podem parecer abstratos para o público geral. "Questões como data centers, custo de vida, empregos — essas coisas eu acho que continuarão sendo mais salientes para as pessoas do que os riscos da superinteligência", disse Schiff.

Implicações para o futuro da IA

A ambivalência da opinião pública nos EUA pode ter implicações significativas para o futuro da adoção e regulação da IA. Se os temores existenciais não dominam a percepção popular, mas sim questões práticas e econômicas, o debate regulatório pode se concentrar mais em políticas de mercado de trabalho, proteção de dados e sustentabilidade ambiental. A falta de um "momento Three Mile Island" — um ponto de virada claro na opinião pública — sugere que o caminho para a integração da IA na sociedade será gradual e marcado por debates contínuos sobre seus benefícios e malefícios concretos. A ausência de euforia pode frear investimentos acelerados e um desenvolvimento desenfreado, enquanto a ausência de pânico evita barreiras regulatórias extremas. O cenário é, portanto, de cautela e pragmatismo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider