A IP Capital, uma das gestoras de ações mais tradicionais do mercado brasileiro, promoveu uma mudança estrutural em sua alocação de ativos. O fundo IP Participações, que historicamente priorizava o mercado doméstico, agora mantém dois terços de seu patrimônio alocados no exterior, sendo 70% desse montante concentrado nos EUA. Apenas um terço do portfólio permanece exposto ao Ibovespa, marcando uma inversão significativa em relação à política de investimentos adotada pela casa há apenas um ano.

Essa guinada reflete uma avaliação crítica sobre o desempenho do mercado brasileiro de longo prazo. Segundo levantamento da própria gestora, nos últimos 15 anos, apenas 33% das 50 maiores empresas do Ibovespa conseguiram superar o retorno do CDI. Em contraste, a totalidade das 50 principais ações do S&P 500 superou a taxa de juros brasileira no mesmo período, evidenciando uma discrepância na capacidade de geração de valor para o acionista.

A falácia do Ibovespa no longo prazo

A tese da IP Capital apoia-se em dados que desafiam a crença de que o mercado acionário brasileiro compensa o risco em horizontes estendidos. Enquanto o Ibovespa acumulou alta de 170% nos últimos 15 anos, o CDI entregou 311%, demonstrando que, para o investidor local, a renda fixa ofereceu um custo de oportunidade superior ao das ações. Empresas como WEG, Sabesp e JBS figuram como exceções raras que conseguiram bater o benchmark de juros, consolidando-se como ativos de valor.

Para a gestora, o mercado americano não representa apenas uma aposta em tecnologia ou inteligência artificial. O histórico de valorização de empresas como NVIDIA, Broadcom e Eli Lilly demonstra que a força da bolsa americana reside na diversidade de setores capazes de entregar lucros consistentes. A estratégia atual, portanto, busca capturar essa capacidade de crescimento, tratando o mercado dos EUA como um motor de geração de valor que o Brasil tem tido dificuldade em replicar.

O mecanismo do carrego e o hedge cambial

Para viabilizar a exposição internacional sem abrir mão da proteção, a IP utiliza uma estratégia de hedge que envolve a venda de dólar futuro. Esse movimento permite que a gestora capture o diferencial de juros entre o Brasil e os EUA, o chamado carrego. Com o diferencial girando em torno de 8,5% ao ano, essa operação atua como um reforço de rentabilidade, protegendo o portfólio contra a volatilidade fiscal brasileira enquanto mantém a exposição aos ativos globais.

Essa dinâmica é vista pelos sócios da IP como uma forma de proteção contra a instabilidade política e econômica local. Quando o governo acelera o gasto público, a pressão inflacionária leva ao aumento dos juros, o que, por consequência, eleva o retorno do carrego. Assim, a estratégia busca transformar o risco fiscal brasileiro em uma ferramenta de proteção financeira para o investidor.

Desafios e o futuro do IP Participações

A mudança na composição do portfólio também mira a recuperação da performance do fundo. O IP Participações, que desde 1994 entregou um retorno acumulado de 31.000%, enfrentou um período recente de resultados aquém do esperado. Nos últimos 12 meses, a rentabilidade de 5% ficou abaixo do Ibovespa, pressionando a gestora a buscar alternativas mais robustas para retomar o patamar histórico de 20% ao ano.

Além das grandes posições em tecnologia como Google e Microsoft, a IP tem buscado empresas consideradas descontadas pelo mercado, como Mastercard e Visa. A gestora argumenta que o medo de disrupção pela IA nesses setores é exagerado, criando janelas de oportunidade para o investimento em empresas com modelos de negócio consolidados e bom compounding, o que os gestores definem como um estilo de investimento focado no básico e eficiente.

O que observar na nova alocação

O sucesso dessa estratégia dependerá da manutenção do diferencial de juros e da resiliência das empresas americanas frente a um cenário de juros globais elevados. A aposta da IP Capital em um portfólio mais globalizado sinaliza um movimento mais amplo entre gestores de fundos de ações no Brasil, que buscam contornar as limitações do mercado local.

A transição do fundo de uma base majoritariamente brasileira para uma alocação predominantemente externa levanta questões sobre o papel da gestão ativa em um cenário de alta volatilidade. A capacidade de navegar entre a segurança do carrego de juros e a valorização das ações globais será o principal teste para a tese da IP nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech