Analistas do Itaú BBA revisaram suas projeções para o Banco do Brasil (BBAS3), adotando uma postura mais cautelosa diante dos desafios enfrentados pelo setor agropecuário. Em relatório divulgado no último domingo, a equipe liderada por Pedro Leduc cortou a previsão de lucro líquido para 2026 de R$ 21,2 bilhões para R$ 18,4 bilhões, acompanhada por uma redução no preço-alvo das ações, que passou de R$ 22 para R$ 21.

A recomendação para o papel permanece como 'market perform', sinalizando que o banco deve acompanhar o desempenho médio do mercado. A tese central da instituição é de que a incerteza em torno da inadimplência do agronegócio é elevada, o que pressiona os resultados e limita o otimismo dos investidores no curto e médio prazos.

O peso do custo de crédito

O ponto focal da revisão do Itaú BBA é o aumento expressivo nas provisões para devedores duvidosos. A estimativa de custo de crédito para o Banco do Brasil subiu de R$ 61,1 bilhões para R$ 73,6 bilhões, patamar que supera o intervalo de guidance fornecido pela própria administração do banco, que previa entre R$ 65 bilhões e R$ 70 bilhões.

Essa elevação é atribuída quase integralmente à carteira de agronegócio. Segundo os analistas, o cenário exige cautela, pois a qualidade das garantias atuais só deve apresentar melhora efetiva a partir do segundo semestre de 2026, quando novas safras de crédito, com critérios mais rigorosos, começarem a amadurecer no balanço da instituição.

Dinâmicas de risco e retorno

Além do volume de provisões, o relatório levanta preocupações sobre o comportamento dos produtores rurais. Os analistas mencionam um possível componente de risco moral, onde a disposição para honrar compromissos financeiros pode estar diminuindo, um fator de difícil mensuração e que adiciona volatilidade às projeções de longo prazo.

Em contrapartida, as operações de crédito para pessoas físicas e jurídicas fora do agro devem manter níveis de provisão estáveis em relação ao primeiro trimestre. O ROE projetado para 2026 foi reduzido de 10,6% para 9,3%, refletindo a pressão sobre a rentabilidade gerada pelo aumento das despesas com crédito rural.

Implicações para o setor

A revisão do Itaú BBA sublinha a fragilidade do setor financeiro brasileiro quando exposto a ciclos de commodities e variações climáticas. A divergência entre as estimativas do mercado e o guidance do banco evidencia a dificuldade em prever a velocidade de recuperação da carteira rural em um contexto de juros e custos operacionais elevados.

Para os investidores, o cenário de incerteza reforça a necessidade de monitorar de perto a evolução da inadimplência nos próximos trimestres. O desempenho das ações, que acumulam queda de quase 11% no ano contra uma alta do Ibovespa, reflete esse ceticismo do mercado em relação à capacidade do banco de absorver os choques do campo sem comprometer sua rentabilidade.

Perspectivas futuras

O que permanece incerto é se a estratégia de crédito do banco será capaz de mitigar os riscos antes que o impacto no balanço se torne mais profundo. O mercado observará com atenção os próximos resultados trimestrais em busca de sinais de estabilização nas provisões.

A sustentabilidade da margem financeira, que teve suas projeções elevadas, será testada contra a realidade da inadimplência. A questão central para os próximos meses é se o banco conseguirá equilibrar o crescimento da receita com a necessária disciplina na concessão de crédito.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times