“Numa era de consumismo e materialismo, eu trafico céu azul e ar colorido.” A frase, uma das mais célebres de James Turrell, serve como manifesto e chave de leitura para sua obra. Entrar em uma de suas instalações é uma rendição sensorial. O espaço perde contornos, a profundidade se dissolve e o que resta é a pura imersão na cor — uma experiência que beira o transcendental, criada a partir de elementos tão simples quanto luz e arquitetura.
Este é o universo que Turrell, um dos expoentes do movimento Light and Space, volta a explorar em Miami. Para celebrar o quinto aniversário do centro de arte imersiva Superblue, o artista apresenta Blue Sea Sky (2026), sua mais nova peça da série “Ganzfeld”. O termo alemão, que significa “campo total”, descreve um fenômeno de percepção que Turrell, piloto desde os 16 anos e estudioso de psicologia perceptual, persegue há mais de cinco décadas: a anulação do campo visual estruturado, que nos força a perceber a própria percepção.
A cor como lugar
A nova instalação substitui outra obra de Turrell, AKHU (2021), que estava no local desde a inauguração do Superblue. A troca não é trivial; sugere uma contínua calibração da experiência. Em Blue Sea Sky, as cores que banham o ambiente são uma tradução direta da paisagem da Flórida: o azul do oceano, o verde das palmeiras, os laranjas do pôr do sol e os rosas das fachadas Art Déco. A arte aqui não é um objeto a ser observado, mas um ambiente a ser habitado, um lugar feito de luz.
Para Mollie Dent-Brocklehurst, cofundadora e curadora-chefe do Superblue, a obra “reúne as pessoas numa experiência compartilhada de imersão em cor pura, empurrando os limites da percepção humana”. O trabalho de Turrell opera nesse limiar, onde a física da luz encontra a subjetividade da experiência. Ele não pinta uma tela, mas esculpe o próprio ato de ver.
Em um ecossistema de arte cada vez mais dominado por tokens digitais e obras-espetáculo, a proposta de Turrell adquire uma nova ressonância. Seu “tráfico” de ar colorido é um lembrete radical de que o valor pode residir no imaterial, no efêmero e no intransferível. O que se leva de uma obra de Turrell não é uma fotografia ou um ativo, mas a memória de uma sensação — um eco de cor na mente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





