Jay Milder, figura fundamental do expressionismo figurativo e mentor de gerações de artistas, faleceu aos 92 anos em Nova York, na quarta-feira, dia 27 de maio, vítima de um acidente vascular cerebral. A notícia foi confirmada pela Eric Firestone Gallery, que representava o artista desde 2022. Nascido em Omaha em 1934, Milder mudou-se para Nova York ainda na adolescência, onde estabeleceu uma trajetória marcada pela independência criativa e pela recusa às convenções do mercado de arte tradicional.

Sua atuação foi muito além da tela. Em 1958, ao lado de Red Grooms, Milder fundou a City Gallery, um espaço gerido por artistas em um loft no Flatiron. O local serviu como plataforma para nomes que viriam a definir a arte do século XX, como Claes Oldenburg e Jim Dine, em um momento em que a cena artística da cidade buscava romper com o conservadorismo das galerias estabelecidas.

O espírito da City Gallery

A criação da City Gallery não foi apenas uma iniciativa empresarial, mas um ato de resistência cultural. Segundo relatos de historiadores da arte, a frustração de Milder com a rigidez do circuito da Tenth Street foi o motor para a abertura do espaço em Chelsea. O projeto atraiu atenção pela capacidade de mesclar artistas emergentes com nomes já consolidados, criando um ambiente de experimentação que se tornou um marco do experimentalismo urbano na Nova York da virada dos anos 50 para os 60.

Essa postura desafiadora era um reflexo da própria formação de Milder. Após estudar com o escultor Ossip Zadkine e o pintor André Lhote na França, ele trouxe para os Estados Unidos uma visão que equilibrava a técnica europeia com a crueza da vida metropolitana. Sua obra, frequentemente associada à segunda geração da New York School, é reconhecida pela capacidade de capturar a energia frenética e, por vezes, claustrofóbica da vida urbana, como exemplificado em sua série "Subway Runners".

A profundidade espiritual na obra

A pintura de Milder era um exercício de busca constante. Amigos e especialistas apontam que sua produção era profundamente influenciada pelo misticismo judaico, um legado de seu avô que permeava a composição de suas telas através de numerologia cabalística. Para Milder, o ato de pintar era uma prática espiritual e regenerativa, uma visão que ele manteve durante décadas, mesmo diante das mudanças cíclicas no mercado de arte contemporâneo.

Essa dimensão mística, somada a uma personalidade descrita como generosa e bem-humorada, conferia à sua obra uma qualidade atemporal. Enquanto muitos de seus contemporâneos se voltavam para o cinismo ou para a abstração pura, Milder mantinha o compromisso com a figuração, tratando seus personagens com uma humanidade esquemática, mas carregada de personalidade, que espelhava o caos e a vitalidade das multidões no metrô de Nova York.

Impacto institucional e legado

Hoje, o trabalho de Milder integra coleções de instituições de prestígio, como o Brooklyn Museum e o New Museum. A reavaliação de sua obra nos últimos anos, impulsionada por exposições na Eric Firestone Gallery, reafirmou seu papel como um dos elos perdidos do expressionismo figurativo americano. Para críticos e curadores, Milder não foi apenas um observador da cena, mas um dos arquitetos que permitiram que a arte experimental florescesse fora dos limites institucionais.

O reconhecimento tardio de sua importância histórica sublinha uma característica persistente no mercado: a dificuldade de classificar artistas que operam à margem das tendências predominantes. Milder, no entanto, parecia indiferente a essas categorizações, priorizando a autenticidade de sua expressão sobre a validação externa.

O futuro da preservação

O falecimento do artista abre uma nova fase para a preservação de seu espólio. Resta saber como a historiografia da arte integrará sua contribuição, especialmente no que diz respeito ao impacto das galerias independentes que ele ajudou a fomentar. A obra de Milder serve como um lembrete de que a vitalidade artística de uma metrópole depende, em grande parte, de espaços criados por artistas para artistas.

Observar a recepção de suas obras em exposições futuras será fundamental para entender se o mercado está, finalmente, pronto para abraçar a complexidade espiritual e a crueza figurativa que Milder defendeu por mais de meio século. O vazio deixado por sua partida é, em parte, preenchido pela resiliência de um corpo de trabalho que se recusa a ser esquecido.

Com reportagem de Brazil Valley

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