A memória cinematográfica de Nova York nos anos 80 é um campo fértil, povoado por gênios e gângsteres. De um lado, há a visão de Julian Schnabel em 'Basquiat', de 1996: um mergulho na cena artística efervescente, com Jeffrey Wright no papel do artista-mártir, cercado por ícones como David Bowie interpretando Andy Warhol. É o retrato de uma cidade como epicentro cultural, onde a criatividade e a autodestruição dançam sob as luzes de Manhattan.

Agora, uma outra faceta da mesma época ganha o palco principal. Segundo o Criterion Daily, o Festival de Cinema de Nova York escolheu 'Paper Tiger', de James Gray, para sua abertura. A escolha sinaliza um fascínio por uma narrativa diferente. Gray, descrito pela crítica como um "cronista consistente da Nova York retrô", volta-se para os bairros operários e as tensões étnicas, tecendo um drama criminal sobre uma família judaica e a máfia russa.

O pincel e a pistola

O contraste entre as duas obras é a própria história das múltiplas identidades de Nova York. Se Schnabel, ele mesmo um pintor, filma o universo que conhece — o do ateliê, da fama e da tragédia pessoal como espetáculo —, Gray opera em outro registro. Sua obra consistentemente explora as dinâmicas de poder nas margens, as lealdades familiares e a violência que permeia o sonho americano. 'Paper Tiger' é descrito como um filme que equilibra "melodrama à moda antiga e suspense muscular", uma fórmula que se afasta do mito do artista para abraçar o realismo cru da sobrevivência.

A escolha do filme de Gray para abrir um dos festivais mais importantes do mundo não é trivial. Representa um endosso a essa visão menos glamorosa, mas talvez mais visceral, da cidade. Enquanto a Nova York de 'Basquiat' é um palco para a ascensão e queda de um indivíduo extraordinário, a de 'Paper Tiger' parece ser um tabuleiro onde famílias comuns se tornam alvos involuntários de forças maiores. São duas crônicas da mesma década, vistas de janelas opostas.

O cinema, ao revisitar esses passados, não apenas documenta, mas constrói a mitologia de um lugar. A Nova York que emerge desses filmes é tanto um personagem quanto um cenário: um campo de batalha para a alma, seja ela disputada com pincéis ou com pistolas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Criterion Daily