A artista Julie Mehretu, em discurso para a turma de 2026 da Rhode Island School of Design (RISD), lançou um desafio contundente aos novos profissionais das artes e do design: a necessidade de habitar o desconforto das perguntas sem resposta. Em um momento marcado pela instabilidade política e ecológica global, Mehretu argumenta que a formação acadêmica não deve servir apenas para a especialização técnica, mas para o exercício de uma imaginação radical capaz de vislumbrar realidades que ainda não existem.
Segundo o relato da cerimônia, a artista ressaltou que a geração atual herda um sistema global fragmentado, onde as promessas de progresso e modernidade falharam em entregar bem-estar coletivo. Para Mehretu, o papel dos novos criadores é ocupar as margens e as ruínas deixadas por gerações anteriores, transformando a crise em matéria-prima para a reinvenção.
O conceito de sobrevivência colaborativa
Mehretu utiliza a metáfora do cogumelo Matsutake, explorada pela antropóloga Anna Lowenhaupt Tsing, para ilustrar como a vida pode florescer em ambientes destruídos. Diferente de espécies que exigem condições controladas e florestas saudáveis, o Matsutake prospera em locais degradados pela atividade humana, tornando-se um símbolo de resiliência e adaptação. Essa analogia serve como base para o que a artista define como "sobrevivência colaborativa", um modelo de existência que encontra significado e beleza no que restou da falha sistêmica.
O ponto central dessa reflexão é que a verdadeira inovação não busca a restauração de um passado idealizado, mas a criação de algo novo a partir dos destroços. Ao adotar essa postura, o artista abandona a tentativa de controlar o resultado final e aceita a incerteza como um componente essencial da prática criativa. É uma rejeição explícita à busca por certezas rápidas que, segundo a artista, dominam a lógica atual do mercado e da tecnologia.
A intuição como disciplina rigorosa
Para a artista, o processo criativo no estúdio não é um ato de inspiração divina, mas uma disciplina desenvolvida através de uma observação constante e rigorosa. O "estado de fluxo" mencionado por Mehretu exige que a mente racional ceda espaço para a intuição, permitindo que a mão e o olhar processem informações que a consciência imediata ainda não alcançou. Essa prática de "não saber" não deve ser confundida com paralisia, mas vista como um espaço fértil de possibilidades.
Ela enfatiza que o trabalho artístico é um diálogo contínuo com os ancestrais, com as referências culturais e com as contradições do mundo contemporâneo. Ao resistir à tentação de concluir um trabalho antes que ele esteja pronto, o criador consegue manter vivas as tensões entre beleza e ruptura, luto e desejo. Essa capacidade de sustentar opostos sem forçar uma resolução simplista é, para ela, a forma mais sofisticada de pensamento disponível atualmente.
Responsabilidade e o papel social da arte
As implicações dessa postura são profundas, tanto para reguladores quanto para o setor de tecnologia. Mehretu critica como as novas ferramentas digitais e a inteligência artificial têm sido utilizadas para acelerar a extração e a acumulação, em vez de fomentar a imaginação gerativa. Ela desafia os novos designers a questionar as premissas por trás de cada algoritmo e estrutura social, lembrando que nenhuma escolha técnica ou estética é neutra.
No ecossistema brasileiro, onde a criatividade muitas vezes precisa florescer em contextos de escassez e desigualdade, a reflexão de Mehretu ganha um contorno prático. A ideia de que a arte não é um luxo, mas um instrumento de processamento do insuportável, ressoa com a necessidade de encontrar soluções locais que não dependam exclusivamente de modelos importados de sucesso. O desafio é construir um futuro que reconheça as cicatrizes do presente sem se tornar refém delas.
O futuro como incerteza produtiva
O que permanece em aberto é como essa geração conseguirá equilibrar a irreverência cínica, frequentemente expressa através da cultura de memes e do humor absurdo, com a construção de estruturas institucionais sólidas. A transição entre a crítica radical e a implementação prática de novos mundos é o grande teste para os próximos anos. A observação de Mehretu sugere que a resposta não virá de planos rígidos, mas da manutenção dessa postura aberta e curiosa.
O horizonte aponta para uma necessidade crescente de "proximidade com o sofrimento", conforme citado pela artista através de Bryan Stevenson, para que o trabalho criativo seja genuinamente transformador. Aqueles que conseguirem transitar entre a precisão técnica e a sensibilidade política serão os que definirão os novos contornos da cultura global. O convite final é para que a incerteza não seja temida, mas utilizada como a ferramenta mais potente de construção.
A arte e o design, portanto, permanecem como os campos onde a humanidade pode ensaiar o que ainda não se tornou realidade, mantendo viva a chama da possibilidade em um mundo que frequentemente insiste no contrário. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





