O pátio de concreto do MoMA PS1, em Nova York, conhecido por sua aridez, acaba de ganhar um jardim. A intervenção é da artista e poeta Precious Okoyomon, cuja instalação ficará no local pelos próximos dois anos, transformando radicalmente o espaço. A obra se chama "Among the Flowers I Learned to Love: A Garden of Decreation".
Segundo reportagem da publicação de arte Hyperallergic, a peça central é uma escultura gigante de um urso de pelúcia, intitulada "The Pleasure Principle", que funciona como um escorregador. A entrada, contudo, é pelo traseiro da escultura, e a saída, pela boca. O movimento sugere a tese do trabalho: uma subversão do espaço urbano e do corpo, transformando um ambiente estéril em um local de reflexão e transgressão lúdica.
Um portal no corpo da arte
A escolha do pátio do PS1 não é acidental. A intervenção de Okoyomon é um contraponto direto à arquitetura fria do museu, inserindo um ecossistema vivo e em constante mudança em um local definido pela rigidez. O urso de pelúcia, um símbolo recorrente na obra da artista ligado à sua infância, aqui ganha uma nova camada de complexidade. A artista o descreve como um portal, não um túmulo, em uma referência direta ao ensaio “Is the Rectum a Grave?”, um marco da teoria queer.
Ao deslizar pela estrutura, o visitante participa ativamente da obra, borrando a fronteira entre observador e objeto. A experiência é lúdica, mas carrega o peso de referências que vão da psicanálise à literatura, materializando a busca da artista por "uma contínua digestão da infância", como afirmou à publicação. O jardim não é apenas um ato de criação, mas de "decreação", como diz o título, desfazendo a ideia de um espaço estático para propor um ciclo de vida e renascimento.
Ao fim, a instalação de Okoyomon opera em múltiplas frentes. É uma recuperação afetiva de uma memória pessoal, uma intervenção crítica sobre o espaço urbano e uma potente declaração sobre corpo e identidade. O jardim no MoMA PS1 não é apenas um lugar para se ver, mas um espaço para se atravessar, literal e metaforicamente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





