A Lao Gan Ma, renomada fabricante chinesa de molho de pimenta, se viu no centro de um paradoxo: ao mesmo tempo em que celebrava um recorde histórico de faturamento em 2025 — superando os 5,4 bilhões de yuanes —, enfrentava uma crise reputacional alimentada por rumores sobre demissões em massa ligadas à automação.
A empresa atribuiu parte do sucesso à adoção de um sistema de visão por inteligência artificial em sua planta de Guiyang, na província de Guizhou. Segundo o diretor de qualidade da empresa, Li Xin, a tecnologia inspeciona a linha de produção a cada 0,3 segundos, descartando produtos com mofo ou manchas e reduzindo o índice de defeitos a meros 0,02%.
Paralelamente à divulgação dos resultados financeiros, um rumor se espalhou rapidamente pelas redes sociais chinesas, especialmente no Weibo, sugerindo que a implementação da IA teria levado à demissão de centenas de inspetores de qualidade. As especulações apontavam para uma redução drástica no quadro de pessoal, de cerca de 600 para apenas 48 trabalhadores. A empresa negou as informações, classificando-as como falsas. Em nota, a área de recursos humanos confirmou o uso de IA na inspeção, mas afirmou que não houve demissões em massa — e que o quadro de funcionários atual é maior do que os números citados nos rumores sugerem. A discrepância entre a versão oficial e as especulações gerou um debate acalorado sobre transparência corporativa e o impacto real da automação.
A história da Lao Gan Ma é singular. Fundada por Tao Huabi no final dos anos 80, a empresa começou como uma pequena fábrica de molho caseiro e cresceu exponencialmente sem nunca ter buscado financiamento externo ou aberto capital. A marca, que ostenta a imagem de sua fundadora nas embalagens, detém cerca de 55% do mercado de molho de pimenta na China, com uma fortuna estimada para Tao Huabi superior a US$ 1 bilhão. Essa estrutura autônoma e a forte ligação com a figura de sua fundadora tornam a empresa particularmente sensível a acusações que possam manchar sua imagem, especialmente quando envolvem o bem-estar de seus trabalhadores.
A crise reputacional da Lao Gan Ma reflete um receio mais amplo na China e em outros mercados sobre o avanço da inteligência artificial e seu potencial para substituir mão de obra humana. O governo chinês tem promovido ativamente a adoção de IA por meio do plano "AI Plus", com metas ambiciosas de implementação em setores estratégicos até 2030. Contudo, essa agenda esbarra na preocupação de uma parcela da população que teme a perda de empregos. Casos anteriores — como o da Klarna e do Commonwealth Bank, que reverteram demissões ligadas à IA, ou a redução de pessoal em empresas como Salesforce e Duolingo — alimentam essa apreensão. Embora estudos recentes sugiram que apenas uma pequena fração das demissões nos EUA seja diretamente atribuída à IA, o medo do desemprego tecnológico persiste e se manifesta com força em episódios como o da Lao Gan Ma.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





