A Legacy Capital adotou uma postura defensiva em relação ao Brasil, mantendo cerca de 80% de seu risco alocado em ativos internacionais. Segundo Gustavo Pessoa, responsável pela mesa de renda fixa, a fragilidade das contas públicas e o cenário fiscal pressionam os prêmios de risco, impossibilitando apostas direcionais de longo prazo no mercado local.

Em evento promovido pela Inter Asset nesta terça-feira (16), o gestor descreveu o ambiente doméstico como "horroroso", destacando a dependência excessiva de fatores externos para a estabilidade dos preços. A estratégia da casa tem sido realizar operações táticas rápidas, como o aproveitamento de picos na curva de juros, seguidas pela liquidação imediata das posições.

O diagnóstico fiscal e a inflação

A leitura da Legacy aponta para uma trajetória de inflação desancorada, com projeções de IPCA em 5% para este ano e 4,7% para 2027, patamares superiores às expectativas do mercado. Para a gestora, a política fiscal baseada na expansão do gasto público, caso mantida em um eventual próximo mandato, tende a elevar a volatilidade cambial e comprometer a eficácia da política monetária.

O gestor ressaltou que, com o juro real da Selic operando próximo a 9%, ativos como a NTN-B perdem atratividade relativa. A preocupação central reside na possibilidade de mudanças estruturais na condução da política econômica, incluindo o debate sobre a meta de inflação, o que, segundo o executivo, exigiria uma revisão drástica da exposição ao país.

Dinâmicas de mercado e alocação

No exterior, a tese central da Legacy concentra-se no setor de inteligência artificial, com exposição relevante a empresas de chips e memória em Taiwan e Coreia do Sul. A gestora busca capturar não apenas o crescimento direto dessas companhias, mas também os efeitos macroeconômicos da valorização das moedas dessas regiões frente ao dólar.

Internamente, o fundo tem priorizado ativos de crédito em setores com maior capacidade de repasse de custos, como infraestrutura, evitando empresas excessivamente alavancadas. A ausência de apostas na depreciação do real justifica-se pelo custo de carregamento elevado, dado o diferencial de juros que ainda sustenta a moeda local em patamares específicos.

Implicações para o ecossistema

A cautela da Legacy reflete um sentimento de incerteza que permeia grandes gestores de multimercados diante do ciclo eleitoral. A necessidade de seletividade, mencionada também por outros players como a Tenax Capital, indica que o mercado brasileiro passará por um período de alta volatilidade, exigindo que empresas mantenham fundamentos sólidos para atrair capital.

Para reguladores e formuladores de política econômica, o recado é claro: a percepção de risco fiscal está limitando o fluxo de investimentos de longo prazo. A estabilidade do crédito e a manutenção de uma trajetória sustentável de dívida tornaram-se os principais vetores de confiança para investidores institucionais que buscam preservar patrimônio em cenários de incerteza política.

Perspectivas e incertezas

O que permanece como uma incógnita é a capacidade do Banco Central de ancorar as expectativas sem sacrificar excessivamente a atividade econômica. A manutenção de taxas de juros acima de 14% por um período prolongado pode restringir o crédito e afetar empresas que não se prepararam para um ambiente de custo de capital elevado.

Observar o comportamento da curva de juros e a reação do câmbio aos próximos movimentos fiscais será determinante para entender se o pessimismo atual se consolidará como um padrão de longo prazo ou se haverá janelas de oportunidade para o retorno do capital ao mercado doméstico.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney