Alan Greenspan, que comandou o Federal Reserve entre 1987 e 2006, faleceu aos 100 anos, deixando para trás um legado de estabilidade que moldou a economia global moderna. Em nota oficial, o Fed destacou sua habilidade em navegar por crises e ancorar a confiança pública na instituição, um feito que, à luz do cenário político atual, revela-se como seu pilar mais duradouro.

O período Greenspan consolidou a imagem do banqueiro central como um tecnocrata infalível — ou, como descreveu Paul Krugman nos anos 90, alguém que não era "bem um Deus". Essa aura de onipotência, sustentada por uma linguagem deliberadamente enigmática, permitiu ao Fed operar com autonomia, distanciando-se das pressões políticas imediatas de Washington.

A construção da autonomia institucional

Greenspan assumiu o comando em um momento de teste severo: a "Segunda-feira Negra" de 1987, quando os mercados despencaram mais de 20%. Sua resposta imediata e técnica, garantindo liquidez ao sistema sem ceder ao pânico, definiu o arquétipo do gestor de crises. Ao longo das décadas seguintes, ele enfrentou pressões políticas, incluindo investidas de George H.W. Bush para baixar juros, mantendo o foco na estabilidade de preços.

Essa postura estabeleceu o Fed como uma autoridade técnica inquestionável, capaz de ignorar caprichos políticos e demandas de curto prazo. A crença na tecnocracia era compartilhada por mercados, governos estrangeiros e pelo próprio Congresso, criando um ambiente onde a política monetária era tratada como uma ciência quase exata, protegida da volatilidade eleitoral.

O custo da desregulamentação

Contudo, a trajetória de Greenspan não foi isenta de falhas. Sua confiança excessiva na capacidade dos mercados financeiros de precificar riscos e corrigir desvios provou-se fatal na crise de 2008. O próprio ex-presidente admitiu, perante o Congresso, um estado de "choque e descrença" ao ver as instituições financeiras falharem em proteger seus próprios acionistas e o sistema como um todo.

Esse momento marcou o início de uma ruptura na confiança pública. A percepção de que a tecnocracia servia apenas aos interesses de Wall Street e de uma elite financeira, enquanto a classe média enfrentava crises de emprego e custo de vida, alimentou o atual sentimento anti-institucional, que hoje contesta a própria legitimidade de órgãos independentes.

O cenário de erosão institucional

Vivemos hoje uma era marcada pelo ceticismo em relação a instituições tradicionais, do Judiciário ao meio científico. O Fed não está imune a essa corrosão, especialmente em um ambiente onde o discurso populista trata servidores de carreira como obstáculos à vontade política. A substituição de especialistas por aliados políticos em posições-chave é um reflexo direto dessa nova realidade.

O risco, portanto, não é apenas a falha técnica, mas a destruição da independência do banco central. Sem a aura de infalibilidade que protegia Greenspan, o Fed torna-se vulnerável a uma politização que pode comprometer a estabilidade econômica a longo prazo, transformando a política monetária em mais uma arena de disputa partidária.

O futuro da política monetária

É difícil imaginar que qualquer sucessor consiga replicar a reputação mística que Greenspan cultivou. A era da tecnocracia protegida parece ter chegado ao fim, dando lugar a um cenário onde a transparência e a legitimidade política serão testadas de forma contínua e, possivelmente, hostil.

O que resta observar é se o Fed conseguirá manter sua integridade técnica diante de um cenário de crescente interferência. A pergunta fundamental é se a independência do banco central pode sobreviver em um sistema político que, cada vez mais, rejeita a autoridade de especialistas não eleitos.

O legado de Greenspan permanece como um lembrete do valor da estabilidade, mas também como um alerta sobre os limites da tecnocracia em uma sociedade profundamente dividida. Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas