A Legora, startup sueca de inteligência artificial aplicada ao setor jurídico, consolidou sua posição como uma das empresas que mais crescem na Europa ao atingir uma avaliação de US$ 5,6 bilhões. O feito ocorreu após uma rodada de financiamento Série D de US$ 550 milhões, atraindo investidores estratégicos como a NVentures, o fundo de venture capital da Nvidia, e o escritório de advocacia internacional Bird & Bird. Com apenas três anos de existência, a companhia já ultrapassou a marca de US$ 100 milhões em receita recorrente anual, atendendo cerca de 1.000 clientes em 50 mercados globais.
O crescimento acelerado da Legora, segundo reportagem da Fortune, coincide com uma estratégia de marketing pouco convencional para o setor. Ao contratar o ator Jude Law para uma série de anúncios, a empresa conseguiu projetar sua marca muito além dos círculos restritos de advogados e especialistas em tecnologia. O CEO e cofundador, Max Junestrand, descreve a iniciativa como uma forma de tornar a tecnologia de IA, frequentemente árida, um tópico de conversa comum, superando a barreira de entrada em um mercado historicamente conservador e avesso a mudanças abruptas.
A virada tecnológica no setor jurídico
O setor jurídico é reconhecido por sua resistência à inovação, mantendo fluxos de trabalho manuais e sistemas fragmentados que, muitas vezes, dependem de processos legados. Para Junestrand, a tecnologia de IA não estava madura o suficiente para resolver problemas reais até a disponibilização das APIs do modelo GPT-3.5. Esse momento foi descrito pelo executivo como um divisor de águas, permitindo que a Legora transformasse sua abordagem de uma exploração técnica inicial para uma solução capaz de enfrentar gargalos operacionais críticos em escritórios de advocacia.
A parceria com o escritório Bird & Bird foi fundamental para essa transição. Como a primeira firma internacional a colaborar com a startup, a organização não apenas utiliza as ferramentas, mas também aconselha a Legora no desenvolvimento de produtos. Christian Bartsch, CEO da Bird & Bird, observa que o setor jurídico está maduro para a disrupção, uma vez que tarefas de alto valor estratégico ainda são submetidas a fluxos de trabalho repetitivos e ineficientes que a IA pode automatizar.
Mecanismos de adoção e a tese da hibridização
A estratégia de crescimento da Legora baseia-se na premissa de que a IA não substituirá os advogados, mas os tornará mais competitivos. A tese central é a do "advogado híbrido", profissional que mantém sua inteligência humana e capacidade crítica, enquanto utiliza a máquina para aumentar a precisão e a velocidade de entrega. Essa abordagem mitiga o receio comum sobre a confiabilidade da IA, que já enfrentou escrutínio por inventar jurisprudências em contextos de uso indevido.
O uso de celebridades na publicidade, embora inusitado, cumpre um papel de validação de marca em um mercado saturado. Ao investir em uma produção de alto nível, com profissionais de renome, a Legora buscou transmitir seriedade e sofisticação, elementos necessários para conquistar a confiança de sócios de grandes escritórios que, tradicionalmente, priorizam a discrição e a reputação consolidada sobre promessas tecnológicas disruptivas.
Implicações para o mercado global
Para reguladores e concorrentes, o sucesso da Legora sinaliza uma mudança de paradigma na prestação de serviços jurídicos. A automação está forçando escritórios tradicionais a repensarem seus modelos de cobrança e eficiência operacional. A expectativa é que, à medida que a tecnologia se torna mais acessível, a vantagem competitiva migrará para aqueles que conseguirem integrar a IA de forma segura e ética em suas rotinas diárias.
No ecossistema brasileiro, o movimento reflete uma tendência global de busca por eficiência em setores de alta complexidade regulatória. Escritórios de advocacia no Brasil, que enfrentam volumes massivos de processos, observam com atenção a adoção dessas ferramentas internacionais. A questão central não é mais se a IA será adotada, mas como a integração entre a expertise jurídica humana e a capacidade de processamento de dados será estruturada para manter a conformidade e a qualidade exigidas pelo judiciário local.
Desafios e o futuro da escala
Embora a Legora tenha alcançado uma escala impressionante, o desafio de manter a qualidade em 50 mercados distintos permanece. A complexidade das leis locais e as variações nas normas processuais exigem que a tecnologia seja constantemente adaptada. O futuro da empresa dependerá de sua capacidade de evoluir sua arquitetura para lidar com jurisdições que possuem exigências de privacidade e segurança de dados cada vez mais rigorosas.
O mercado aguarda para ver se o ritmo de crescimento será sustentável a longo prazo, especialmente à medida que a concorrência de outras legaltechs e de grandes empresas de software se intensificar. A capacidade de Junestrand em equilibrar a ambição tecnológica com a necessidade de precisão jurídica será o principal indicador do sucesso contínuo da companhia nesta nova fase de expansão global.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





