A Mantiqueira estabeleceu o primeiro trimestre de 2027 como o marco para atingir a marca de 10 milhões de galinhas em operação nos Estados Unidos. O movimento faz parte de uma estratégia agressiva de consolidação internacional, impulsionada pela parceria com a JBS, que adquiriu participação na companhia em janeiro de 2025. Segundo o fundador Leandro Pinto, o processo de repopulação das granjas da Hickman’s Egg Ranch — adquirida pela Mantiqueira no ano passado — já está 60% concluído, pavimentando o caminho para que a empresa se posicione entre os cinco maiores produtores de ovos do mundo.

O plano de expansão ocorre em um momento de reorganização das estruturas produtivas americanas, que sofreram com os impactos de surtos de gripe aviária. A Mantiqueira, que hoje opera com cerca de 6 milhões de aves nos EUA, busca integrar essa unidade ao seu portfólio global com o objetivo de equilibrar a produção brasileira, que deve fechar o ano com 20 milhões de galinhas. A leitura do mercado é que essa transição não apenas amplia o volume, mas altera o perfil de risco da companhia ao diversificar a exposição geográfica e cambial da operação.

A sinergia com a JBS como motor de crescimento

A entrada da JBS no capital da Mantiqueira funcionou como um catalisador para projetos que, embora estivessem no radar da gestão, enfrentavam restrições de capital e escala. A expertise da gigante das proteínas em gestão de suprimentos, finanças e governança permitiu que a Mantiqueira ganhasse agilidade, tratando decisões complexas com a rapidez de uma estrutura menor. Leandro Pinto destacou que a sociedade permitiu o acesso a sinergias em custos, como a compra de embalagens e equipamentos, além de um balanço mais robusto.

Historicamente, a Mantiqueira operava com limitações típicas de empresas familiares que buscam saltos de produtividade em mercados de juros altos. A parceria transformou esse cenário, oferecendo uma retaguarda de pesquisa e desenvolvimento e uma capacidade de investimento que, segundo o executivo, permite à empresa ser mais seletiva e eficiente, focando em crescimento ordenado em vez de apenas volume puro.

A lógica da expansão internacional e moeda forte

A estratégia de internacionalização da Mantiqueira é fundamentada na necessidade de reduzir a dependência das exportações brasileiras, que estão sujeitas a restrições comerciais voláteis. Ao operar localmente nos Estados Unidos, a companhia constrói um balanço em dólar, o que oferece maior previsibilidade financeira. A escolha pelos EUA não é casual: trata-se de um mercado maduro, com alta demanda e maior estabilidade regulatória do que mercados emergentes.

O modelo de crescimento da empresa alterna entre aquisições e expansão orgânica, dependendo do custo de oportunidade. A recente compra dos 50% restantes da Colorado Eggs exemplifica essa postura pragmática. A Mantiqueira mantém uma análise constante de ativos disponíveis, aproveitando o alcance global da JBS para identificar oportunidades que estejam alinhadas à sua estratégia de longo prazo, evitando movimentos puramente especulativos.

Implicações para o setor e stakeholders

Para o setor de proteínas, o movimento da Mantiqueira sinaliza uma profissionalização acelerada da produção de ovos, um segmento historicamente fragmentado. Concorrentes locais e globais observam com atenção a capacidade de uma empresa brasileira de aplicar padrões de eficiência e bem-estar animal em mercados competitivos como o americano. A transição para práticas cage-free, onde a Mantiqueira já possui 65% de sua produção no Brasil, coloca a empresa em uma posição vantajosa diante de exigências crescentes de consumidores e reguladores internacionais.

Para o ecossistema brasileiro, a ascensão da Mantiqueira como player global reforça a competitividade do agronegócio nacional além das commodities tradicionais. A capacidade de exportar know-how e gestão, e não apenas o produto final, é um diferencial que atrai o interesse do mercado financeiro. A estabilidade da dívida e a solidez do caixa, validadas por agências de rating, são fundamentais para sustentar essa trajetória de internacionalização.

Desafios e perspectivas futuras

O que permanece em aberto é a capacidade da empresa de manter a agilidade operacional à medida que a escala aumenta. O desafio de integrar culturas produtivas distintas entre o Brasil e os EUA exigirá um monitoramento rigoroso de custos e eficiência, especialmente em um cenário de oscilação de preços de insumos. A empresa demonstrou que a estrutura de conselho e a comunicação direta via canais digitais facilitam a tomada de decisão, mas a gestão da complexidade global será o próximo teste real.

Observadores de mercado devem acompanhar os próximos movimentos da Mantiqueira em outros continentes. A empresa não esconde a ambição de ser uma referência global, e a presença da JBS em cinco continentes oferece um mapa de oportunidades vasto. Resta saber se o ritmo de crescimento continuará focado em ativos de alta performance ou se a companhia buscará novos mercados para diversificar ainda mais seu portfólio de proteínas.

A expansão da Mantiqueira ilustra como a combinação entre expertise técnica de nicho e o suporte de um conglomerado global pode redefinir a escala de um negócio tradicional. O sucesso dessa empreitada nos EUA será o principal indicador da viabilidade de uma estratégia de longo prazo que mira a liderança global sem abrir mão da eficiência operacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea