Quando o estilista Law Roach revelou que o vestido etéreo de Zendaya na estreia de The Odyssey, em Nova York, era da “Fecal Matter”, a indústria da moda parou para entender. A peça, um tomara que caia angelical com asas de plumas brancas, vinha da Matières Fécales — em português, matéria fecal. A marca franco-canadense, fundada há mais de uma década, parece ter explodido em todos os lugares, da noite para o dia.

A ascensão, contudo, foi meticulosamente construída. O nome é uma crítica direta ao que os fundadores, Steven Raj Bhaskaran e Hannah Rose Dalton, enxergam como o lado descartável e podre da indústria. “Não há outra palavra para isso, mas como podemos dizê-lo de uma forma glamorosa?”, questionou Dalton à Vogue. A solução foi a tradução para o francês, que “soa muito mais glamoroso”.

Do underground ao establishment

Bhaskaran e Dalton se conheceram como estudantes em Montreal e começaram vendendo suas criações na plataforma de segunda mão Depop. Sua estética pessoal, com cabeças e sobrancelhas raspadas, maquiagem branca dramática e botas que imitam pés humanos, sempre foi parte integral da marca, subvertendo noções convencionais de beleza. A proposta era criar um universo próprio, uma espécie de organismo artístico que desafiava fronteiras.

O que antes era um segredo cult, apoiado por artistas como Madonna e Lady Gaga, encontrou um caminho para o centro do poder. Em 2024, a marca foi acolhida pela Dover Street Market, a influente varejista de vanguarda de Adrian Joffe, que oferece suporte de produção e distribuição para talentos emergentes. O convite para o calendário oficial da Semana de Moda de Paris foi o selo final de aprovação do sistema.

A tensão como passaporte

O sucesso da Matières Fécales parece residir em um paradoxo: a alta-costura, muitas vezes criticada por sua mesmice, anseia por algo que a choque. Como descreveu o estilista de celebridades Brad Goreski, há “uma bela tensão em seu trabalho entre o refinamento e o decadente, o forte e o suave”. Essa dualidade se tornou um passaporte para os eventos mais exclusivos do planeta.

No Met Gala deste ano, a atriz Sarah Paulson usou um vestido da coleção “The One Percent”, com uma máscara feita de notas de dólar sobre os olhos — uma crítica direta aos bilionários sentados na primeira fila. Dias depois, Demi Moore, jurada em Cannes, surgiu com um vestido rosa-choque da marca, rompendo com seu estilo habitualmente estruturado. Ela se apaixonou, segundo seu estilista, pela visão artística e pela narrativa da dupla.

A marca que nasceu para contestar o sistema agora o veste. Resta saber se, ao ser absorvida, a provocação mantém sua potência ou se torna apenas mais uma estética de luxo, despida de sua crítica original.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company