No início, havia uma curiosidade aberta. Rancheiros da região de Snowmass, no Colorado, paravam para conversar com a equipe que instalava uma nova e estranha estrutura em meio à paisagem. Mas o clima mudou no momento em que o artista Matthew Barney começou a cravar estacas no solo para demarcar o perímetro de sua obra. As perguntas se tornaram mais incisivas, o tom beirando a suspeita. “O que você está fazendo? Por que está marcando território como se fosse construir uma casa?”, questionavam. Naquele gesto, a arte deixava de ser um objeto curioso e passava a ser uma declaração sobre a terra — um tema sensível no Oeste americano.

A escultura, intitulada ZONE DEFENSE: Old Snowmass Parallax, é a mais recente manifestação do universo complexo de Barney, um artista conhecido por suas narrativas épicas e materialidade idiossincrática. A obra, que permanecerá no local até o fim do verão, é um desdobramento de uma performance realizada no ano anterior para o festival AIR, do Aspen Art Museum. A tensão observada por Barney com os locais, no entanto, não é um efeito colateral, mas parte central de sua investigação. Conforme reportagem da revista ARTnews, a peça é uma colisão deliberada de símbolos que força o espectador a confrontar noções de propriedade, território e história.

Alquimia de narrativas

Para entender ZONE DEFENSE, é preciso olhar para os trabalhos que a precedem. A escultura funciona como uma espécie de "medley", para usar um termo do próprio Barney, que combina elementos de dois de seus filmes recentes: Redoubt (2019) e Secondary (2023). Do primeiro, que explora mitos do Oeste americano, a reintrodução de lobos em Idaho e a alquimia, a nova obra herda o confronto com a paisagem e a disputa pelo uso da terra. Do segundo, um filme sobre a violência e a graça do futebol americano, ela extrai sua forma central e a memória de um incidente brutal dos anos 1970 entre os jogadores Darryl Stingily e Jack Tatum.

Barney se interessa pelo que chama de "alquimia": a combinação de elementos díspares para criar um terceiro espaço, uma nova substância conceitual. A estrutura principal da escultura remete a um equipamento de treino e a tubos de PVC usados em performances anteriores, mas aqui ela se torna um memorial. No topo, o que parecem ser duas camisas de futebol americano drapeadas são, na verdade, uma peça única de alumínio fundido. A arquitetura de um antigo galpão militar, a coreografia de um campo de futebol e a vastidão de um rancho colidem. O artista cria uma estrutura narrativa onde a tensão não vem de uma história linear, mas do choque entre esses universos.

Um modernismo em colapso

O aspecto mais surpreendente da obra, contudo, é seu ilusionismo material. O que parece ser um tubo de PVC é aço inoxidável pintado. Os pesos de academia na base, com suas cores primárias vibrantes que remetem à Bauhaus, não são de borracha, mas de bronze fundido, com um acabamento que simula o pó de magnésio usado por atletas. É um exercício de trompe l'oeil (engana-olho) em grande escala, uma decisão atípica para um artista cuja obra costuma celebrar o comportamento intrínseco dos materiais.

Barney explica que essa escolha nasceu da vontade de preservar a narrativa das cores — o vermelho, azul e amarelo dos pesos olímpicos, e as cores opostas das camisas. O resultado é uma peça que ele mesmo descreve como "diagramática", quase um desenho transposto para o espaço tridimensional. Ele a vê como "um Calder fracassado, ou um pedaço de Modernismo em colapso", uma referência à escultura modernista que é ao mesmo tempo uma subversão dela. A materialidade não está naquilo que se vê, mas naquilo que se esconde sob a pintura, uma escolha prática ditada pelo peso e pela durabilidade ao ar livre.

Essa tensão entre aparência e realidade ecoa a própria presença da escultura na paisagem. Ela é um objeto alienígena que, ao mesmo tempo, dialoga profundamente com as mitologias do lugar. Barney já manifestou o desejo de um dia instalar a peça em um ambiente interno, comprimido pela arquitetura. A mudança de contexto alteraria radicalmente sua percepção: a vastidão do Oeste seria trocada pela intimidade de uma galeria, e o toque dos pesos no chão de um museu ganharia uma ressonância tátil impossível de sentir sobre a grama. A miragem, então, revelaria outra de suas faces.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews