A chamada "inflação da diversão" (funflation) volta a ser um fator relevante no comportamento do consumidor americano, mas com nuances geracionais significativas. Dados de cartão de crédito do Bank of America indicam que os gastos em atividades de lazer, como arte, artesanato e recreação ao ar livre, apresentaram um aumento de 7,9% em agosto de 2025 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Esse crescimento supera em mais de duas vezes o aumento das transações, que foi de 3,4%, sinalizando um aumento nos preços desses serviços e produtos.
Essa tendência contrasta com o cenário de 2023, quando os gastos com lazer caíram quase 4% enquanto as transações aumentaram. A pesquisa do BofA sugere que, após um período de maior investimento em viagens em 2022 e 2023, os consumidores podem estar retornando a opções de lazer mais acessíveis, como hobbies, especialmente diante da desaceleração do crescimento salarial real. A alta nos custos de combustíveis também pode estar afastando alguns consumidores de viagens mais longas.
Diferenças geracionais no consumo de lazer
Ao analisar os gastos por geração, os dados do Bank of America apontam que os millennials mais velhos (nascidos entre 1978 e 1988) lideram os gastos por cliente em hobbies, seguidos de perto pelos Baby Boomers e a Geração X. Essa faixa etária também apresenta a maior proporção de indivíduos com gastos em hobbies, o que pode ser explicado pela probabilidade de terem filhos pequenos, cujas atividades também demandam investimento. Pesquisas de uso do tempo nos EUA corroboram essa observação, mostrando que millennials mais velhos possuem menos tempo livre diário, sugerindo que seus gastos podem abranger tanto seus próprios interesses quanto os de seus filhos.
Em contrapartida, a Geração Z (nascida entre 1996 e 2010) apresenta um menor gasto médio, mas uma parcela maior de sua população se dedica a atividades de lazer. Isso sugere um foco em hobbies de menor custo, como arte, artesanato e jogos de tabuleiro. Enquanto millennials (mais jovens e mais velhos) e a Geração X tendem a aumentar seus gastos com hobbies, Baby Boomers e a Geração Z mostram uma desaceleração no consumo dessas atividades.
A ascensão dos games para a Geração Z
A desaceleração da Geração Z em gastos com hobbies gerais tem sido notável. O crescimento das transações nesse segmento aproximou-se de zero em agosto de 2025, uma queda drástica em relação aos quase 16% de aumento no ano anterior. Essa retração foi impulsionada principalmente pela diminuição nos gastos com recreação ao ar livre, apesar de aumentos em arte e artesanato. Uma explicação possível é a compra de itens de maior durabilidade no ano anterior, como equipamentos de camping, que não requerem substituição frequente, ou uma migração para atividades mais tradicionais e nostálgicas.
Paralelamente, a Geração Z tem demonstrado um aumento significativo nos gastos com videogames. Mais de um quarto dessa geração relata sentir pertencimento a comunidades de streaming ou jogos, um índice consideravelmente maior que o de outras faixas etárias. Com 20% a 25% de seu tempo livre dedicado a jogos ou uso de computador, a Geração Z praticamente dobra o tempo dos millennials e triplica o de jovens adultos de duas décadas atrás. Os gastos com videogames pela Geração Z cresceram cerca de 20% ao ano em agosto, após um aumento de mais de 30% no ano anterior, consolidando essa preferência.
Implicações para o mercado de lazer e varejo
As distintas preferências de consumo entre as gerações americanas têm implicações diretas para o mercado de lazer e varejo. Empresas que atendem a hobbies tradicionais e atividades ao ar livre podem precisar repensar suas estratégias para atrair a Geração Z, talvez focando em experiências digitais integradas ou em produtos com apelo mais jovem e acessível. Por outro lado, a robustez dos gastos dos millennials mais velhos em hobbies sugere um mercado maduro e estável, com potencial para crescimento em nichos específicos, como materiais de arte de alta qualidade ou equipamentos para atividades ao ar livre mais especializadas.
O aumento nos gastos com videogames pela Geração Z reflete não apenas uma mudança de preferência, mas também o poder econômico crescente desse grupo. Setores como o de e-sports, desenvolvimento de jogos e plataformas de streaming podem se beneficiar dessa tendência. A análise geracional também pode informar estratégias de marketing e desenvolvimento de produtos, permitindo que as empresas segmentem suas ofertas de forma mais eficaz, considerando não apenas a idade, mas também os hábitos de consumo e as prioridades de lazer de cada grupo.
Perguntas em aberto sobre o futuro do consumo de lazer
Resta saber se a tendência de "inflação da diversão" continuará a afetar os gastos com lazer nos EUA, especialmente em um contexto de incertezas econômicas e possíveis mudanças nas prioridades de gastos. A sustentabilidade do crescimento nos gastos com videogames pela Geração Z também é um ponto de atenção, assim como a capacidade de outras gerações se adaptarem a novas formas de entretenimento e lazer.
A forma como as empresas de lazer e varejo responderão a essas dinâmicas geracionais moldará o futuro do setor. A observação contínua dos padrões de consumo e a adaptação às preferências em evolução serão cruciais para o sucesso a longo prazo, especialmente à medida que a Geração Z ganha mais poder aquisitivo e influência no mercado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





