A pauta da neurodiversidade, que abrange de 15% a 20% da população global com traços de TDAH, autismo e dislexia, chegou em definitivo ao mundo do design de interiores e de produtos. A resposta da indústria, no entanto, tem gerado mais ceticismo do que aplausos. A crítica é que o movimento, em muitos casos, não passa de uma estratégia de marketing superficial, cunhada para capitalizar sobre uma conversa importante sem oferecer mudanças substanciais.
A acusação, articulada em um artigo de opinião da jornalista Ellie Foster para a publicação especializada Dezeen, é direta: o design neurodiverso corre o risco de se tornar o novo “greenwashing”. Em vez de uma busca genuína por inclusão, o que se vê é um oportunismo de mercado que explora uma nova demanda. Fabricantes estariam reembalando coleções antigas com um novo verniz de progressismo, sem o rigor necessário que o tema exige.
Além da paleta de cores
A principal crítica se concentra na superficialidade das soluções apresentadas. A abordagem mais comum tem sido reduzir a complexidade da experiência neurodivergente a uma simples questão de paleta de cores. Produtos são lançados com a justificativa de atender a hipo e hipersensibilidade, oferecendo opções em tons neutros para acalmar os superestimulados e cores vibrantes para energizar os que se sentem apáticos. A estratégia posiciona a marca como uma escolha ética, mas a inovação real é mínima.
Foster cita como exemplo uma instalação durante a Clerkenwell Design Week, em Londres, que abordava as necessidades sensoriais de pessoas neurodivergentes. O espaço, bem-intencionado, serviu de pano de fundo para promover uma nova coleção de pisos vinílicos que, na prática, pouco diferia das linhas anteriores da marca. A conexão entre o discurso de inclusão e o produto final era tênue, para dizer o mínimo. O episódio ilustra como a conversa sobre bem-estar é usada para vender os mesmos produtos de sempre, agora com novas cores e um novo rótulo.
A profundidade que falta
O foco excessivo em cores ignora o impacto psicológico e fisiológico que outros elementos do espaço têm sobre cérebros neurodivergentes. Questões como luminárias baixas que podem induzir claustrofobia, móveis com rodízios que geram instabilidade emocional ou cadeiras com excesso de componentes que se tornam fontes de distração ou compulsão obsessiva são raramente abordadas pelos fabricantes.
Essa abordagem limitada revela uma falta de estudo e, principalmente, uma ausência de diálogo com as próprias pessoas neurodivergentes no processo de desenvolvimento dos produtos. A recomendação para arquitetos e designers é, portanto, de ceticismo. É preciso investigar se as marcas que hoje levantam a bandeira da “diferença” já se preocupavam com o tema antes que ele se tornasse um tópico global e, crucialmente, se indivíduos neurodiversos foram consultados ou envolvidos na criação.
O desejo de criar ambientes mais inclusivos é inegavelmente positivo. Contudo, a proliferação de produtos que prometem muito e entregam pouco ameaça esvaziar a discussão. O risco é duplo: os usuários neurodivergentes continuam desassistidos, e os profissionais de design acabam comprando uma solução que não funciona. A verdadeira inovação exigirá mais do que uma nova cartela de cores; demandará pesquisa, empatia e co-criação.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





