Durante décadas, a América Latina foi o principal destino da expansão internacional das gigantes de energia da Espanha. Agora, o centro de gravidade está mudando de volta para casa. Em um movimento que redesenha o mapa estratégico do setor, empresas como Iberdrola, Naturgy e Enagás estão desinvestindo em ativos nas Américas para concentrar poder de fogo na Europa.

A manobra mais vistosa partiu da Iberdrola. Após vender seu negócio no México por cerca de €10 bilhões, a companhia redirecionou o capital para aquisições no Reino Unido e na Finlândia, em operações de valor similar. A leitura do mercado, segundo reportagem da Forbes España, é clara: o capital espanhol está trocando o crescimento em mercados emergentes pela consolidação estratégica no continente europeu, antecipando uma nova fase de concentração setorial.

A geopolítica como bússola

A mudança de rota não é um mero ajuste de portfólio, mas uma resposta a um novo cenário geopolítico e econômico. A guerra na Ucrânia expôs a vulnerabilidade energética da Europa e colocou a independência do continente no topo da agenda de Bruxelas. O resultado é uma demanda por investimentos trilionários em redes elétricas, energias renováveis, hidrogênio e infraestrutura crítica.

Para financiar essa transição, a tese que ganha força na União Europeia, ecoada em relatórios de figuras como Mario Draghi e Enrico Letta, é a necessidade de criar “campeões europeus” — empresas com escala e capacidade financeira para competir com os gigantes estatais chineses e os titãs americanos. As companhias espanholas parecem ter lido essa tendência antes de seus pares, posicionando-se para liderar, e não apenas participar, de futuras fusões e aquisições.

O xadrez corporativo

O movimento da Iberdrola não é isolado. A Naturgy já sinalizou que dispõe de até €12 bilhões para investimentos e aquisições, com o mercado interpretando que o foco será a Europa. A Enagás vem reduzindo sua exposição em Chile, Peru e México para se concentrar em infraestruturas de gás no continente. Até mesmo a Acciona, através de seu presidente, tem defendido a criação de grandes grupos industriais europeus para fazer frente à concorrência asiática em renováveis.

Para a América Latina, e para o Brasil, a implicação é direta: o fluxo de capital espanhol que por anos irrigou o setor de energia tende a diminuir. A estratégia agora é menos sobre expansão geográfica e mais sobre ganho de escala em um mercado único e regulado. O grande ponto de interrogação, contudo, não está nas empresas, mas nos reguladores. Historicamente, a Comissão Europeia foi rigorosa com fusões que pudessem ferir a concorrência. A dúvida é se a nova realidade geopolítica flexibilizará essa postura para permitir a formação de tais campeões. As energéticas espanholas estão apostando que sim.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España