A International Business Machines Corp. (IBM) emitiu um alerta esta semana que reverberou por todo o setor de tecnologia, culminando em uma queda de 25% em suas ações — o pior tombo diário para a companhia desde a década de 1960. A razão, admitida pela própria empresa, é tão simples quanto brutal: seus clientes estão redirecionando orçamentos de forma agressiva, abandonando projetos tradicionais para investir pesado em servidores, armazenamento e memória, os tijolos fundamentais da computação de inteligência artificial.

O episódio, no entanto, transcende a IBM. Ele serve como um estudo de caso para uma tese que ganha corpo em Wall Street: a corrida pela IA não está apenas criando novos mercados, mas canibalizando os existentes. A onda de capital que flui para a nova fronteira tecnológica está drenando recursos de outras áreas, criando uma bifurcação cada vez mais clara entre vencedores e perdedores. Como resumiu um analista à Bloomberg, o movimento não é sutil, é “como um martelo” sobre o status quo.

A nova divisão do setor

A linha divisória é nítida. De um lado, estão as empresas cujos produtos são essenciais para a infraestrutura de IA. O índice de semicondutores da Filadélfia, por exemplo, acumula alta de 68% no ano, impulsionado por uma demanda voraz. Empresas como Micron e Sandisk, que fabricam componentes de memória, veem seus preços e ações dispararem. O mesmo ocorre no setor de cibersegurança, que se beneficia da necessidade de proteger sistemas contra novas ameaças potencializadas pela própria IA.

Do outro lado, estão os gigantes do software tradicional. Empresas como Salesforce e ServiceNow, que fornecem ferramentas consolidadas para gestão de vendas e TI, viram suas ações perderem cerca de um terço de seu valor este ano. A lógica é implacável: com os custos exorbitantes de hardware para IA, especialmente memória, os diretores de tecnologia estão sendo forçados a fazer escolhas difíceis, e os softwares de gestão que não estão no centro da estratégia de IA são os primeiros a sofrer cortes. Analistas da Bloomberg Intelligence preveem que nomes como Workday e SAP também sentirão o impacto.

O dilema do investidor

Essa dinâmica cria um paradoxo para o investidor. As ações de software como serviço (SaaS), antes as queridinhas do mercado, estão sendo negociadas a múltiplos historicamente baixos. Um índice do setor caiu 27% este ano e opera a cerca de 15 vezes o lucro projetado, um desconto profundo em relação à sua média de dez anos, de 53 vezes. Para alguns, isso sinaliza uma oportunidade de compra a preços de barganha.

Contudo, a cautela prevalece. O mercado deixou de enxergar o “software” como um bloco monolítico e agora discrimina ativamente. O receio é que a disrupção da IA não seja apenas um ciclo de realocação de orçamento, mas uma ameaça existencial para alguns modelos de negócio, à medida que empresas como a Starbucks começam a usar IA para desenvolver ferramentas internas, substituindo produtos que antes compravam de fornecedores. Como disse um gestor, investir no setor hoje é como “nadar em um lugar onde você sabe que há piranhas”.

A crise da IBM não é apenas o tropeço de um incumbente. É o sinal mais claro de que a era da IA impõe uma reestruturação de capital em todo o ecossistema. A criação de valor em uma ponta parece estar diretamente ligada à destruição ou, no mínimo, à estagnação em outra. Para cada nova estrela que ascende na era da IA, uma gigante tradicional pode estar sendo forçada a reavaliar seu lugar na cadeia de valor. A pergunta que fica não é se a transformação virá, mas quem continuará pagando a conta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney