O algoritmo de recomendação do Instagram está atuando como um poderoso canal de distribuição para casas de apostas que operam ilegalmente no Brasil. Um levantamento do projeto Rede em Jogo, do laboratório CondadoLab da PUC-Rio, revelou que 84% das operadoras mais sugeridas pela plataforma a usuários não possuem autorização para funcionar no país. A pesquisa analisou mais de 55 mil contas e foi divulgada inicialmente pelo The Intercept Brasil.

O estudo demonstra um efeito cascata: ao seguir um único perfil ligado a apostas, o usuário passa a receber uma enxurrada de sugestões de contas similares. A questão central, portanto, não é apenas a presença de conteúdo ilícito, mas a sua amplificação sistemática pela própria arquitetura da plataforma, transformando o Instagram em um funil que conduz ativamente os usuários a um ecossistema majoritariamente irregular.

A falha na moderação algorítmica

A Meta, controladora do Instagram, possui regras que exigem autorização prévia para anúncios pagos de jogos de azar. No entanto, o estudo aponta que o problema transcende a publicidade direta. O motor de recomendação, que opera sobre conteúdo orgânico, é o principal vetor do problema. Ele promove não apenas as casas de apostas, mas também influenciadores — os chamados tipsters — e páginas que vendem a promessa de ganhos fáceis.

O mecanismo parece operar em um vácuo regulatório e de fiscalização interna. Enquanto as políticas da Meta focam em anúncios pagos e na restrição de conteúdo para menores de 18 anos, seu sistema principal de engajamento e descoberta de conteúdo contribui ativamente para a disseminação de operadores não licenciados. A escala do problema, com contas recomendadas somando milhões de seguidores, expõe uma falha sistêmica, e não apenas casos isolados.

O ecossistema da 'renda fácil'

As recomendações não se limitam a apostas esportivas. O algoritmo também direciona para cassinos online e jogos de azar como o notório "Jogo do Tigrinho". O ecossistema promovido é um de normalização do risco, onde a aposta é frequentemente enquadrada como uma forma de investimento ou uma alternativa à carreira tradicional, com promessas de "saída da CLT" e "renda dos seus sonhos".

Essa narrativa é construída por meio de memes, vídeos curtos e supostos comprovantes de ganhos, integrando a aposta ao cotidiano do usuário de forma lúdica e aspiracional. A estratégia dificulta a percepção de que se trata de uma atividade de alto risco financeiro e potencial viciante, especialmente quando a maior parte dos operadores promovidos atua à margem da lei brasileira.

A conclusão do estudo coloca em xeque a eficácia da moderação de conteúdo em plataformas digitais. O desafio para os reguladores e para a própria Meta não é apenas policiar postagens individuais, mas auditar e corrigir os sistemas algorítmicos que, em sua busca por engajamento, podem acabar se tornando os maiores aliados de mercados paralelos e atividades ilícitas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Canaltech