A ameaça da computação quântica à segurança digital ganhou um contorno de urgência. O alerta é que o perigo não reside em um futuro distante, mas em uma prática já em curso: a coleta massiva de dados criptografados hoje para serem decifrados amanhã, quando computadores quânticos estiverem disponíveis. A tática, conhecida como “harvest now, decrypt later”, foi o foco de uma advertência do professor Guilherme Temporão, da PUC-Rio, durante o Rio Innovation Week.

Segundo reportagem do Canaltech, a lógica é simples e alarmante. Agentes maliciosos, sejam estatais ou criminosos, já estão armazenando volumes massivos de informações sensíveis — segredos de estado, propriedade intelectual, dados financeiros e de saúde — protegidas por algoritmos como RSA e de curvas elípticas. Embora seguros hoje, esses padrões são vulneráveis à computação quântica. Para empresas e governos, a contagem regressiva para proteger o legado de seus dados já começou.

O legado em risco

A discussão sobre criptografia pós-quântica (PQC) deixa de ser um exercício acadêmico e se torna uma necessidade de negócio. O valor de longo prazo dos dados é o que os torna alvos ideais para a estratégia de coleta e espera. Informações que precisam permanecer confidenciais por décadas estão particularmente expostas. O problema é que a infraestrutura digital global foi construída sobre a premissa de que a criptografia atual seria suficiente.

A transição para padrões PQC, que são projetados para resistir tanto a ataques clássicos quanto quânticos, é a única defesa viável. Contudo, o desafio é monumental. Não se trata de uma simples atualização de software, mas de uma substituição profunda em sistemas legados, onde a criptografia está enraizada em múltiplas camadas de hardware e software. Para Temporão, o tempo para iniciar essa migração é agora.

A migração que não pode esperar

O dilema para os gestores é o de investir recursos significativos para mitigar uma ameaça que ainda não se materializou por completo. O custo de um computador quântico funcional ainda é proibitivo e a tecnologia, incipiente. No entanto, o professor da PUC-Rio argumenta que esperar por uma “ameaça concreta” é uma aposta de altíssimo risco.

O processo de mapear, substituir e validar novos sistemas criptográficos pode levar anos. Uma organização que iniciar sua jornada de migração apenas quando a ameaça se tornar iminente simplesmente não terá tempo hábil para se proteger. A consequência seria a invalidação de décadas de sigilo de dados, com impactos incalculáveis para a segurança nacional, a estabilidade financeira e a privacidade individual.

A corrida, portanto, não é apenas para construir computadores quânticos, mas para implementar as defesas contra eles em escala. A pergunta para líderes de tecnologia e negócios deixou de ser se a criptografia pós-quântica será necessária, mas se sua organização estará pronta quando ela se tornar a única opção. O relógio já está correndo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Canaltech