O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos está intensificando sua intervenção no mercado de dívida. Após anunciar planos para dobrar a recompra de títulos de longo prazo, o órgão sinalizou que o volume pode aumentar ainda mais, numa tentativa de apoiar a liquidez e conter a escalada dos rendimentos, que recentemente atingiram os maiores níveis em quase duas décadas.
A medida provocou um alívio imediato no mercado, mas a leitura de estrategistas de grandes bancos de investimento é cética. Segundo reportagem do Money Times, que compila análises do JP Morgan e do UBS, a iniciativa é vista como um paliativo que “trata os sintomas, mas não resolve o problema” de fundo: o desequilíbrio fiscal crônico da maior economia do mundo.
Um analgésico, não a cura
Para os analistas do JP Morgan, não há evidências de um mau funcionamento do mercado que justifique a intervenção. A explicação, segundo o banco, seria política: um desconforto do Tesouro com a alta dos juros longos. A crítica central é que a operação ataca a consequência, e não a causa. O problema real é um déficit fiscal que beira 6% do PIB e uma dívida pública que acaba de ultrapassar a marca histórica de US$ 40 trilhões.
O UBS reforça essa visão, destacando que a recompra não deve ser confundida com um “quantitative easing” (QE). Diferente do Federal Reserve, o Tesouro não pode criar moeda para financiar suas operações. Na prática, a manobra apenas altera o perfil de vencimentos da dívida nas mãos de investidores, trocando títulos antigos por novos, sem reduzir o volume total que o mercado precisa absorver. As necessidades de financiamento do governo permanecem intactas.
O risco do precedente
A estratégia, embora tática, não é isenta de riscos. O JP Morgan alerta que, ao se desviar do princípio de emissão “regular e previsível”, o Tesouro pode, paradoxalmente, contribuir para uma alta dos prêmios de risco e dos próprios juros no longo prazo. Com uma necessidade de financiamento estimada em mais de US$ 3,5 trilhões nos próximos anos, os EUA precisarão emitir mais títulos de longa duração, tornando a medida atual um contraponto delicado à realidade fiscal.
O histórico de intervenções similares em outros países, como Japão e Reino Unido, serve de alerta. Conforme aponta o UBS, essas medidas podem oferecer alívio temporário e reduzir a volatilidade, mas falham em baixar os custos de financiamento de forma permanente quando as condições fiscais e inflacionárias são desfavoráveis. O mesmo princípio se aplica aos EUA: as forças que sustentam os juros altos — déficits persistentes e alta demanda por capital — não foram endereçadas.
O programa de recompra, com prazo para terminar em novembro, reforça seu caráter tático. A questão que fica no ar é por quanto tempo o maior mercado de dívida do mundo pode operar com base em analgésicos, enquanto a ferida fiscal continua se aprofundando sem uma solução estrutural à vista.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





