Mais de um terço da força de trabalho americana, o equivalente a quase 57 milhões de pessoas, hoje se enquadra na categoria de “trabalhadores descartáveis”. A definição, dura mas precisa, vem de uma nova pesquisa do economista do trabalho Paul Osterman, do MIT, detalhada em seu livro “Disposable Workers” e repercutida pela revista Fortune. O fenômeno vai muito além da chamada 'gig economy' e aponta para uma transformação estrutural na relação entre capital e trabalho.

O estudo de Osterman argumenta que as empresas estão sistematicamente redesenhando seus quadros para maximizar a flexibilidade e reduzir custos, tratando uma parcela massiva de seus colaboradores como recursos temporários, sem segurança ou perspectiva de carreira. A leitura é que não se trata de uma anomalia ou de uma tendência restrita a motoristas de aplicativo, mas de uma estratégia deliberada que permeia de escritórios de advocacia a hospitais, criando uma subclasse permanente de trabalhadores.

As três faces da precarização

Osterman, com base em uma pesquisa nacional com mais de 6.000 pessoas, divide os trabalhadores descartáveis em três grupos. O primeiro, e mais óbvio, é o dos terceirizados, que respondem por 13% da força de trabalho. São os seguranças, equipes de limpeza ou mesmo enfermeiros que atuam no local de uma empresa, mas são empregados por uma firma de contratação. O segundo grupo é o dos freelancers que prestam serviço para organizações, como programadores ou designers, representando 5% do total.

A categoria mais reveladora, no entanto, é a dos “trabalhadores marginais”, que somam 17% da força de trabalho. Diferente dos outros, eles são funcionários diretos da empresa, com carteira assinada, mas ocupam posições sem nenhuma perspectiva de progressão. São os advogados contratados por grandes escritórios para tarefas específicas, mas que nunca estarão na trilha para se tornarem sócios, ou os professores universitários sem estabilidade, cuja proporção saltou de 27% do corpo docente em 1970 para 68% em 2021 nos EUA.

A lógica por trás do descarte

A principal motivação para essa reestruturação é financeira. Contratar freelancers e terceirizados permite que as empresas evitem custos mandatórios como contribuições para a seguridade social ou, em muitos casos, planos de saúde. No caso dos trabalhadores marginais, a alta rotatividade embutida no cargo elimina a necessidade de investir em treinamento e desenvolvimento de carreira, além de facilitar ajustes no tamanho da força de trabalho sem os custos associados a demissões.

Mas a lógica não é apenas econômica; ela é também gerencial e cultural. A análise de Osterman ecoa um controverso relatório da McKinsey de 2023, que afirmava que 5% dos funcionários entregam 95% do valor de uma organização. Essa mentalidade, mesmo que questionável, legitima a visão dos outros 95% como dispensáveis. As consequências são claras: salários mais baixos, menor satisfação no trabalho e externalidades negativas para a sociedade, como o aumento de taxas de infecção hospitalar quando os serviços de limpeza são terceirizados.

O avanço do trabalho “descartável” não é um fenômeno exclusivamente americano, mas um espelho de tendências globais que encontram forte ressonância no Brasil. A eficiência de curto prazo obtida pelas companhias parece gerar um déficit de longo prazo em estabilidade social e desenvolvimento de capital humano. A questão que permanece não é se o modelo é sustentável para os trabalhadores, mas se ele é, de fato, sustentável para a própria economia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune