A chegada do Cybercab, o sedã autônomo da Tesla, às ruas de cidades americanas trouxe consigo um problema latente da era dos robotáxis: como serviços de emergência devem lidar com esses veículos em um acidente? A resposta da companhia, materializada em um novo guia para socorristas, acendeu um alerta no setor.

Segundo reportagem da Fast Company, o protocolo da Tesla transfere uma complexidade considerável para bombeiros e policiais. A leitura aqui é que a inovação, ao menos neste quesito, está sendo subsidiada pelo tempo e pela atenção de agentes públicos em situações de alta pressão, levantando questões sobre a escalabilidade e a segurança do modelo.

Um manual para cada carro?

As diretrizes da Tesla para o Cybercab são um exemplo da fragmentação do problema. Em uma emergência, um socorrista pode precisar ligar para dois números de suporte diferentes e aguardar que um funcionário da empresa se conecte remotamente ao veículo. O manual também detalha o funcionamento peculiar das portas e câmeras e instrui que o acionamento do modo manual via touchscreen pode ser impraticável com luvas.

Há ainda o risco de incêndio elétrico ao tentar religar o sistema de baixa voltagem após uma colisão. Para especialistas como Jeffrey Lindsey, ex-chefe de bombeiros ouvido pela reportagem, adicionar essa camada de complexidade a uma equipe que já está com “um prato cheio de coisas para realizar” é insustentável. A prioridade inicial é sempre a segurança da cena, algo que um manual de instruções remoto não facilita.

Um problema coletivo, sem solução à vista

O desafio, no entanto, não é exclusivo da Tesla. A Waymo, líder do setor, também já enfrentou dificuldades na interação entre seus veículos e socorristas, incluindo problemas com linhas de emergência e o não reconhecimento de sinais manuais. O cenário se tornou tão preocupante que a NHTSA, agência de segurança no trânsito dos EUA, emitiu uma carta à indústria alertando sobre os riscos de interferência de veículos autônomos em operações de emergência.

Isso expõe uma falha de coordenação. À medida que mais empresas entram na corrida, a perspectiva é que policiais e bombeiros tenham que identificar o fabricante de cada robotáxi acidentado, encontrar o guia correspondente e executar um procedimento único. A alternativa seria um sistema unificado, uma espécie de padrão de indústria para resposta a emergências. Até agora, contudo, essa colaboração não aconteceu.

A corrida pelo domínio da tecnologia autônoma parece ter deixado em segundo plano sua integração com a infraestrutura crítica e analógica do mundo real. Enquanto cada empresa desenvolve seu próprio ecossistema fechado, a conta da complexidade em uma crise está sendo empurrada para quem menos pode pagá-la: os serviços de emergência na linha de frente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company