A Broadway estava em silêncio. No meio da tarde daquela terça-feira de céu claro, o coração de Manhattan havia parado. O tráfego, bloqueado. As poucas pessoas na rua falavam em sussurros, como se qualquer som mais alto pudesse quebrar o feitiço sombrio que havia caído sobre a cidade. Para o escritor S. Abbas Raza, cujo apartamento em uptown se tornara um campo de refugiados improvisado para amigos que viviam perto do World Trade Center, a realidade parecia um sonho febril.
Este é o cenário que ele descreve em um relato revisitado agora, 25 anos após os ataques de 11 de Setembro. A memória que persiste não é apenas a do horror, mas a da estranheza. A de ver veículos blindados e soldados rolando lentamente pelo asfalto, enquanto caças F-14 circulavam no céu. A de notar homens à paisana com submetralhadoras nas esquinas — agentes do FBI, como soube mais tarde. Era uma zona de guerra, uma imagem que o transportou para pesadelos de infância sobre a guerra de 1971 entre Paquistão e Índia.
O fim da distância
Aquele dia colapsou distâncias. Para muitos em Nova York e no Ocidente, a guerra era um conceito distante, algo que acontecia "lá". De repente, ela estava na esquina de casa. O relato de Raza captura a dissolução dessa fronteira psicológica. A sensação de invulnerabilidade que definia a vida na metrópole foi pulverizada em questão de horas, substituída por uma vulnerabilidade palpável e compartilhada.
O título original de seu texto, "Como nos tornamos importantes", aponta para essa súbita e brutal centralidade. Não era uma importância desejada, mas imposta. A cidade e seus habitantes foram arrancados da normalidade e inseridos à força no centro de um evento histórico global. A cada momento, como descreve, alguém no grupo de amigos desabava em lágrimas, uma liberação da tensão e do choque que permeava o ar.
Duas décadas e meia se passaram, mas a memória daquele silêncio permanece. A pergunta que ecoa não é sobre o barulho das torres caindo, mas sobre o que se quebrou permanentemente no sussurro que tomou conta da cidade e, por extensão, do mundo.
Com reportagem de Brazil Valley
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