A narrativa sobre a extinção dos últimos mamutes-lanosos acaba de ganhar um novo roteiro. Por muito tempo, a ciência atribuiu o desaparecimento da última população, isolada na Ilha de Wrangel, no Ártico, a um lento e inevitável declínio genético. Agora, um estudo do Centro de Paleogenética de Estocolmo, publicado na revista Cell, desafia essa visão determinista.

A análise do genoma desses animais, que sobreviveram por 6.000 anos após seus pares continentais desaparecerem, revela que a população era funcional e relativamente estável. A leitura aqui é que o destino dos mamutes não estava selado em seu DNA. Em vez de uma morte anunciada, a espécie pode ter sido vítima de um evento catastrófico e repentino.

O mito do declínio genético

A tese do colapso genético era elegante e intuitiva. Após o nível do mar subir e isolar a Ilha de Wrangel, há cerca de 10 mil anos, um pequeno grupo de mamutes — talvez originado de apenas oito indivíduos — ficou confinado. Com o tempo, a endogamia teria acumulado mutações deletérias, tornando a população inviável. Era a crônica de uma extinção programada.

Contudo, os dados do novo estudo contam outra história. A população não apenas sobreviveu como se estabilizou em 200 a 300 indivíduos. A análise genética mostrou que a seleção natural continuou ativa, expurgando muitas das mutações prejudiciais. Embora a diversidade genética fosse baixa, ela não atingiu um ponto crítico que, por si só, explicasse o fim da espécie. A população não estava em uma espiral da morte; estava sobrevivendo.

Um cisne negro no Ártico

Se a genética não foi a causa primária, o que realmente extinguiu os mamutes de Wrangel? Os pesquisadores trabalham com a hipótese de um evento externo e imprevisível. Um "cisne negro" que atingiu uma população pequena e sem rotas de fuga. As possibilidades incluem uma mudança climática abrupta, como um evento de chuva sobre neve que congelou o acesso ao pasto, ou a chegada de uma nova doença para a qual não tinham defesa.

O estudo identificou uma perda de diversidade em genes ligados ao sistema imunológico, o que pode ter deixado os mamutes vulneráveis a um novo patógeno. A lição que emerge é sobre a fragilidade de sistemas isolados, mesmo quando parecem estáveis. A história dos últimos mamutes deixa de ser um conto sobre os perigos da endogamia para se tornar uma advertência sobre o poder de eventos contingentes e imprevisíveis na história da vida.

O mistério, portanto, muda de figura. A pergunta não é mais por que seus genes falharam, mas qual foi o golpe de misericórdia que os surpreendeu. A extinção dos mamutes-lanosos se parece menos com uma doença crônica e mais com um acidente fatal, cujo responsável ainda não foi encontrado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital