O iene japonês teve sua maior valorização em mais de um mês, subindo cerca de 2% e sendo negociado a 155,52 por dólar. O movimento abrupto reverte semanas de desvalorização gradual e sinaliza uma mudança de humor no mercado, que agora aposta com mais força no fim da era de juros ultrabaixos no Japão.
A reviravolta foi catalisada por uma combinação de fatores: especulação crescente de que o Banco do Japão (BOJ) finalmente subirá os juros em sua reunião de 18 de setembro, o temor de uma nova e iminente intervenção do governo no câmbio e comentários mais brandos de um diretor do Federal Reserve americano, que aliviaram a pressão sobre o dólar. A leitura é que o mercado está forçando uma definição do BOJ, após meses testando os limites da política monetária japonesa.
O fim da anomalia monetária?
Por anos, o Japão foi uma anomalia no cenário global, mantendo taxas de juros negativas ou próximas de zero enquanto o resto do mundo, notadamente os Estados Unidos, embarcava em um ciclo de aperto monetário. Essa diferença abissal de juros transformou o iene na moeda preferida para operações de carry trade — tomar empréstimos baratos em ienes para investir em ativos de maior rendimento em outras moedas —, exercendo uma pressão vendedora constante.
As autoridades japonesas tentaram conter a sangria com intervenções diretas, gastando um recorde de US$ 96,4 bilhões no último mês para comprar ienes e sustentar seu valor. A eficácia, contudo, foi questionada. Agora, o jogo parece estar mudando. Comentários de membros do próprio BOJ, como Hajime Takata, sugerindo que uma alta de 0,25 ponto percentual pode não ser o fim da linha, alimentam a percepção de que a política monetária pode finalmente se alinhar aos esforços de intervenção, dando mais credibilidade à estratégia.
O jogo duplo de Tóquio
O movimento recente do iene ilustra a eficácia da atuação em duas frentes: a ameaça de intervenção cambial pelo Ministério das Finanças e a sinalização de uma mudança de rumo pelo banco central. O principal responsável pela política cambial do país, Atsushi Mimura, elevou o tom, prometendo "continuar a batalha no câmbio", o que foi interpretado como um aviso claro aos especuladores.
Ainda assim, analistas de mercado, como os citados pela Bloomberg, pedem cautela. A valorização foi amplificada pelo fechamento de posições vendidas e dificilmente se sustentará sem uma ação concreta e surpreendentemente firme do BOJ, além de um dólar globalmente mais fraco. Para muitos, é prematuro decretar o fim da tendência de queda do iene. Uma alta sustentável exigiria que o BOJ não apenas subisse os juros, mas sinalizasse um ciclo de aperto monetário mais agressivo do que o antecipado.
A reunião do Banco do Japão em meados de setembro se torna, portanto, um momento decisivo. A questão que paira sobre os mercados é se o presidente Kazuo Ueda finalmente cederá à pressão e iniciará uma normalização monetária ou se, mais uma vez, frustrará as expectativas, arriscando uma nova onda de desvalorização do iene.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





