O psicólogo e linguista Steven Pinker volta a se debruçar sobre a natureza humana, desta vez com um foco na dinâmica do poder. Em um trecho de seu novo livro, publicado pela revista Persuasion, Pinker explora uma questão central para a estabilidade de regimes autoritários: por que eles temem tanto a dissidência, mesmo a mais isolada?

A resposta, segundo ele, não reside na força bruta, mas em um conceito da teoria dos jogos conhecido como "conhecimento comum". A tese é que ditaduras não se sustentam porque os cidadãos acreditam na propaganda do regime, mas porque cada indivíduo, embora privadamente insatisfeito, não sabe que a maioria de seus compatriotas compartilha do mesmo sentimento.

A espiral do silêncio

Pinker descreve esse fenômeno como "ignorância pluralista" ou "espiral do silêncio". Trata-se de uma situação em que a maioria das pessoas rejeita uma norma em particular, mas acredita, incorretamente, que a maioria dos outros a aceita. O medo da punição por expressar descontentamento leva à autocensura.

O resultado é um equilíbrio perverso: ao se calar para se proteger, cada cidadão reforça a impressão de que há um consenso em favor do regime, desincentivando outros a se manifestarem. A tirania não precisa de apoiadores genuínos em massa; basta que a oposição permaneça fragmentada e invisível para si mesma.

O poder do ato público

É aqui que entra o papel catalisador de um ato público, como uma manifestação. Seu principal valor, na análise de Pinker, não é comunicar a insatisfação ao ditador — ele provavelmente já sabe —, mas sim aos outros cidadãos. O protesto quebra a ignorância pluralista.

Ao ver milhares de outros na rua, um indivíduo não apenas confirma sua própria visão, mas ganha a certeza de que outros sabem que ele sabe, e assim por diante. Esse conhecimento comum é o pré-requisito para a ação coordenada. Ele transforma o risco individual de ser punido sozinho na força coletiva capaz de sobrepujar o aparato repressivo do Estado.

A análise de Pinker oferece uma lente poderosa para entender movimentos políticos, da Primavera Árabe a protestos mais recentes. Em uma era digital, onde plataformas podem tanto criar bolhas de conformidade quanto acelerar a formação de conhecimento comum, a fronteira entre a espiral do silêncio e a cascata de insurreição torna-se cada vez mais tênue e imprevisível.

Com reportagem de Brazil Valley

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