Em um trecho de seu novo livro, o psicólogo Steven Pinker retoma uma questão fundamental da ciência política: o que, de fato, sustenta um regime autoritário? A resposta, segundo ele, não reside na força bruta ou na vigilância ostensiva, mas em um mecanismo psicológico mais sutil e poderoso: a ausência de “conhecimento comum”.
A tese é que a tirania prospera não porque os cidadãos são felizes ou leais, mas porque os descontentes acreditam estar sozinhos. Essa condição, conhecida na academia como “ignorância pluralista” ou “espiral do silêncio”, descreve um estado em que a maioria silencia sua opinião por acreditar, erroneamente, que ela é minoritária. Sem a certeza de que outros compatriotas compartilham de sua insatisfação, o risco de um protesto individual é alto demais, permitindo que o regime se perpetue ao neutralizar dissidentes um a um.
O paradoxo da força
Nenhum governo, por mais opressor que seja, possui recursos para controlar fisicamente dezenas de milhões de cidadãos agindo em uníssono. O poder de um regime autoritário é, portanto, uma aposta na descoordenação da sociedade. A repressão funciona enquanto consegue manter os indivíduos atomizados, convencendo cada um de que a rebelião é um ato solitário e suicida.
É aqui que o “conhecimento comum” se torna a arma mais perigosa contra a autocracia. Não se trata apenas do conhecimento privado (saber que o regime é ruim), mas de saber que todos os outros sabem, e que todos sabem que você sabe. Essa percepção compartilhada é o catalisador que transforma o descontentamento individual em ação coletiva, pois reduz drasticamente o risco percebido de agir.
A disputa pela percepção
A era digital adicionou uma camada de complexidade a essa dinâmica. Inicialmente, as redes sociais foram vistas como a ferramenta definitiva para criar conhecimento comum e quebrar a espiral do silêncio, permitindo que a insatisfação se tornasse visível em tempo real. Movimentos e protestos organizados online pareciam confirmar essa tese.
Contudo, regimes autoritários modernos aprenderam a manipular o próprio campo de batalha informacional. Eles utilizam bots, propaganda e desinformação para fabricar um consenso artificial de apoio, ou para semear a desconfiança e a polarização, tornando impossível para o cidadão comum aferir o verdadeiro sentimento da maioria. A espiral do silêncio se reinventa no ambiente digital, agora alimentada por algoritmos.
A luta pelo poder, portanto, desloca-se cada vez mais da força física para o controle da narrativa e da percepção. A questão central não é apenas quem tem mais poder de fogo, mas quem consegue definir o que “todo mundo” pensa — ou, mais importante, o que se acredita que todo mundo pensa.
Com reportagem de Brazil Valley
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