A diversidade é um objetivo declarado em corporações, universidades e instituições ao redor do mundo. Mas a simples presença de pessoas de diferentes origens em um mesmo espaço não garante harmonia ou produtividade. Pelo contrário, pode gerar uma forma sutil e corrosiva de estresse. Essa é a tese central de Claude Steele, professor emérito de psicologia da Universidade de Stanford, que batizou o fenômeno de “churn”: uma agitação psicológica que surge da incerteza e da ansiedade em interações diversas.
Em uma longa entrevista à publicação Persuasion, Steele argumenta que esse sentimento é distinto do preconceito. Trata-se de uma apreensão sobre como a identidade de cada um será julgada e tratada. Em um grupo homogêneo, essa preocupação se dissipa. Em um ambiente diverso, ela se torna uma questão central, minando a confiança. A leitura aqui é que, ao focar apenas em erradicar o preconceito, ignoramos uma barreira mais imediata e universal à verdadeira integração: a falta de segurança psicológica.
Além do preconceito
O conceito de 'churn' se torna mais claro com os exemplos de Steele. Imagine pais negros se preparando para uma reunião com a professora branca de seu filho. Eles entram na sala com uma vigilância particular, preocupados que o filho seja visto através da lente de estereótipos negativos sobre jovens negros — como agressividade ou menor potencial acadêmico. Eles não sabem se a professora é preconceituosa, mas a mera possibilidade de que ela seja, ou de que opere sob vieses inconscientes, gera uma tensão que permeia toda a interação. A confiança não é o ponto de partida; ela precisa ser conquistada sob suspeita.
O ponto mais contraintuitivo da análise de Steele é que essa ansiedade é uma via de mão dupla. A professora branca, ciente dos estereótipos sobre pessoas brancas em posições de poder, também sente o 'churn'. Ela teme que qualquer crítica construtiva ao aluno negro seja interpretada como um ato de racismo. Sua preocupação é ser vista em termos do pior estereótipo de seu grupo. O resultado é que ambos os lados da mesa estão operando sob uma ameaça de identidade, um medo de serem mal interpretados. O 'churn', portanto, não é um problema de um grupo contra o outro, mas uma condição do próprio ambiente diverso, onde a confiança se torna um recurso escasso.
A métrica da confiança
Se o problema não é apenas o preconceito, a solução também não pode ser apenas a tolerância. Para Steele, o caminho para tornar os ambientes diversos funcionais passa pela construção deliberada de confiança. Ele ilustra o desafio com um experimento que conduziu em Stanford: como um professor branco pode dar feedback crítico a um estudante negro de forma que o feedback seja confiável e acionável? No estudo, os pesquisadores testaram diferentes abordagens. Quando o feedback era dado de forma direta, ou mesmo acompanhado de um elogio genérico, os estudantes brancos confiavam no retorno. Os estudantes negros, não.
A desconfiança dos estudantes negros não era um reflexo de sua capacidade, mas da ambiguidade da situação. Eles não tinham como saber se a crítica se devia à qualidade do seu trabalho ou a um viés do avaliador. A questão que o experimento busca responder é fundamental: qual tipo de comunicação consegue transcender essa ambiguidade e sinalizar que o feedback é um genuíno investimento no potencial do aluno, e não um julgamento de sua identidade? A solução não está em evitar críticas, mas em encontrar uma linguagem e um contexto que estabeleçam a confiança como premissa.
O trabalho de Steele oferece uma lente mais sofisticada para analisar as complexas dinâmicas de ambientes diversos, inclusive no Brasil. Ele desloca o foco de uma caça a indivíduos preconceituosos para uma análise sistêmica sobre como as instituições podem ou não gerar confiança. A pergunta que fica não é apenas “como eliminamos o preconceito?”, mas “como construímos ativamente a segurança psicológica para que todos possam performar sem o peso constante da suspeita?”.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Persuasion



