A partir de setembro, quem visitar a cidade de Santander, no norte da Espanha, poderá ver de perto o olhar penetrante de Frida Kahlo em seus autorretratos e os murais icônicos de Diego Rivera. As obras, pilares da arte mexicana do século 20, serão as estrelas da inauguração do Faro Santander, o monumental centro cultural da Fundação Banco Santander. O espaço, um antigo prédio do banco renovado pelo arquiteto vencedor do Pritzker David Chipperfield, nasce como um novo marco na paisagem cultural europeia.
Contudo, do outro lado do Atlântico, a celebração é acompanhada de um profundo mal-estar. A exposição central, intitulada “México Moderno na Coleção Gelman Santander”, expõe uma ferida aberta. A fundação espanhola agora é proprietária de 160 das 300 obras da lendária coleção, e a sua transferência para a Espanha, mesmo que temporária, é vista por muitos no México não como um intercâmbio, mas como uma expropriação cultural.
O Tesouro em Disputa
A Coleção Gelman é considerada um dos acervos mais importantes de arte mexicana, reunida pelo casal Jacques e Natasha Gelman entre 1941 e 1998. O problema é que muitas de suas peças, incluindo trabalhos de Kahlo e Rivera, são classificadas como “monumentos artísticos” pela lei mexicana, o que impede sua remoção permanente do país. A notícia da aquisição pelo Santander foi recebida com uma carta aberta assinada por mais de 200 artistas e profissionais da arte no México, que classificaram a exportação como um “erro institucional” do governo, que deveria ter adquirido as obras para o acervo nacional.
A resposta oficial do Instituto Nacional de Belas Artes e Literatura do México foi pragmática: a coleção era “extremamente cara” e os recursos públicos não seriam suficientes. O Santander, por sua vez, agiu para mitigar a crise, afirmando que a remoção não é permanente e organizando apressadamente uma mostra no Museu de Arte Moderna da Cidade do México. A manobra, porém, não apaga a questão central: um patrimônio nacional agora tem seu destino atrelado aos interesses de uma instituição financeira estrangeira.
O Poder Brando do Capital
O Faro Santander é mais do que um museu; é uma declaração de poder. Ao lado da coleção mexicana, o centro exibirá pela primeira vez tesouros da própria coleção do banco, acumulada ao longo de 160 anos, com mestres como El Greco, Goya e Miró. O projeto posiciona o Santander não apenas como um gigante financeiro, mas como um ator cultural de primeira grandeza, capaz de moldar narrativas e projetar influência — o chamado soft power — em escala global.
O movimento ecoa estratégias de outras grandes corporações que utilizam fundações culturais para construir sua imagem e legado, operando em uma esfera onde o capital privado assume um papel que, em outras épocas, seria exclusivo do Estado. A controvérsia em torno da Coleção Gelman ilustra a tensão inerente a esse modelo. A arte, nascida do fervor nacionalista e da identidade mexicana, agora habita um espaço financiado e controlado por um banco europeu.
As obras de Frida Kahlo, que exploraram com tanta visceralidade suas dores e sua mexicanidade, encontram agora uma nova casa, asséptica e monumental, com vista para a baía de Santander. A questão que paira no ar é se, nesse novo contexto, seu significado original permanece intacto ou se ele também foi, de alguma forma, adquirido.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





