A vitamina B12, por décadas vista como uma aliada inequívoca da saúde, está no centro de um debate científico que desafia percepções consolidadas. Essencial para a formação do DNA e a saúde do sistema nervoso, a cobalamina sempre foi associada a benefícios, com sua deficiência sendo um risco conhecido, especialmente para dietas restritivas. Contudo, uma série de estudos recentes aponta para uma relação paradoxal com o câncer, onde tanto a escassez quanto o excesso da vitamina aparecem ligados a desfechos negativos.
A hipótese inicial era linear: níveis baixos de B12 poderiam comprometer o reparo do DNA, abrindo portas para mutações cancerígenas. A surpresa veio de estudos que encontraram o oposto: níveis sanguíneos anormalmente altos em pacientes que viriam a desenvolver tumores. A questão que emerge, portanto, é se a B12 é causa ou consequência. A leitura mais recente da ciência pende para a segunda opção, sugerindo que níveis elevados podem ser um sinalizador — um marcador biológico — da presença de um tumor, e não o gatilho da doença.
A hipótese da causalidade reversa
A principal linha de investigação para explicar os níveis elevados de B12 em pacientes com câncer é a da causalidade reversa. O argumento é que o próprio tumor, e não a ingestão de suplementos, altera o metabolismo do corpo e provoca o aumento da vitamina na corrente sanguínea. O fígado, que armazena grandes quantidades de B12, pode ter seu funcionamento desregulado por metástases, liberando suas reservas de forma anômala. Além disso, certos tipos de câncer podem aumentar a produção de proteínas que transportam a B12 pelo sangue.
Um estudo publicado na Cancer Research Communications com mais de 37 mil pacientes de câncer de cólon trouxe evidências robustas para essa tese. Pacientes com níveis elevados de B12 (acima de 1.000 pg/L) tiveram uma sobrevida mediana de cinco anos, contra quase onze anos para aqueles com níveis normais. O grupo com B12 alta também apresentava maior incidência de doença em estágio avançado e metástases. A interpretação é que tumores mais agressivos são mais eficientes em sequestrar e utilizar a B12 para sustentar seu crescimento acelerado, fazendo com que o nível elevado no sangue seja um reflexo da agressividade da doença, não sua causa.
A curva em 'U' e as incertezas
A complexidade não para por aí. Outras pesquisas identificaram uma associação em formato de "U", onde tanto o consumo muito baixo quanto o muito alto de B12 foram ligados a um maior risco de câncer. Um estudo observacional no Vietnã, que acompanhou quase 7 mil pessoas, encontrou essa correlação, embora com ressalvas importantes: a metodologia se baseava na memória alimentar dos participantes, uma fonte conhecida de imprecisão. Além disso, o que foi classificado como "consumo elevado" não era muito superior à dose diária recomendada.
A associação entre níveis baixos e maior risco de câncer ainda carece de uma explicação definitiva, mas pode estar ligada ao papel original da vitamina no reparo do DNA. A inconsistência dos resultados em diferentes populações e tipos de tumor mostra que o tema está longe de ser um consenso. O que parece cada vez mais claro, no entanto, é que a dosagem de B12 no sangue não deve ser interpretada de forma isolada.
Para a saúde pública e a indústria de suplementos, a lição é de cautela. A suplementação indiscriminada, baseada na premissa de que "mais é sempre melhor", pode mascarar sinais importantes. Em vez de um fator causal, os níveis de B12 podem ser uma peça valiosa no quebra-cabeça do diagnóstico e prognóstico do câncer, funcionando mais como um alarme do que como o incêndio em si.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Olhar Digital





