No palco do especial de comédia da Netflix que mirava em Kevin Hart, dois universos da alta relojoaria colidiram. De um lado, o astro do futebol americano recém-aposentado Tom Brady, com um Rolex Sea-Dweller de ouro branco cravejado de diamantes, uma peça de catálogo secreto avaliada em US$ 6 milhões. Do outro, o próprio anfitrião, Kevin Hart, usando um discreto e raríssimo Patek Philippe Golden Ellipse vintage, com caixa gravada à mão. O contraste não poderia ser mais eloquente.

O episódio ilustra uma mudança de paradigma no colecionismo de relógios entre a elite cultural, conforme detalhado por uma reportagem do Hypebeast. Se antes o jogo era definido por modelos esportivos de alta demanda ou peças cobertas de pedras preciosas, a nova demonstração de status reside no inatingível: exclusividades que não estão no catálogo, peças únicas e relíquias vintage que exigem profundo conhecimento ou uma alavancagem industrial séria para serem adquiridas. O valor não está mais apenas na etiqueta de preço, mas na história e na exclusividade.

A nova moeda do status

O movimento transcende a simples ostentação. Trata-se de um jogo de acesso e narrativa. O Rolex de Tom Brady, por exemplo, não é um relógio que se pode simplesmente comprar, mesmo com os recursos financeiros. É um modelo "off-catalog", reservado pela marca para seus clientes mais importantes, subvertendo a herança utilitária do Sea-Dweller, um relógio de mergulho, em um símbolo de poder pós-carreira. Da mesma forma, o Richard Mille RM056 de Jay-Z, com sua caixa esculpida em um único bloco de safira azul, é uma peça única ("piece-unique") encomendada para celebrar seu álbum clássico The Blueprint. Com um custo estimado de US$ 2,5 milhões, o valor real reside na sua singularidade e na complexidade artesanal, que levou milhares de horas para ser concluída.

Essa busca pela exclusividade também se manifesta em peças que funcionam como troféus pessoais. O Rolex Daytona customizado do rapper Drake, apelidado de "Ice Gradient", é um exemplar único criado para comemorar seu 15º single a alcançar o primeiro lugar nas paradas da Billboard. O gradiente de diamantes e safiras no bisel e no mostrador não é apenas um feito de joalheria; é um placar de carreira materializado no pulso. Para essa classe de colecionadores, o relógio deixa de ser um acessório e se torna um artefato, um marcador de conquistas que o dinheiro por si só não pode replicar.

O resgate do vintage e a criação de tendências

Em paralelo à busca por encomendas únicas, uma outra frente de sofisticação se abriu: a curadoria de peças vintage raras, que demonstram um tipo diferente de capital cultural. O artista Tyler, the Creator tornou-se o principal expoente dessa vertente. Ao adotar um Cartier Crash dos anos 1990 — um relógio com uma caixa surrealista e assimétrica, antes conhecido apenas por puristas —, ele praticamente sozinho ressuscitou o interesse por relógios de design avant-garde e de dimensões menores. A combinação da peça com seu estilo de streetwear preppy introduziu a silhueta a uma nova geração, transformando um item de nicho em um dos mais cobiçados da cultura pop.

A escolha de Kevin Hart por um Patek Philippe Golden Ellipse vintage e gravado à mão segue uma lógica similar. Em um ambiente repleto de brilho e peças de grande porte, sua opção por uma elegância artesanal e discreta foi uma declaração de conhecimento. Ambas as escolhas, de Tyler e Hart, sinalizam que o verdadeiro luxo, para o conhecedor, não precisa gritar para ser notado. É uma confiança silenciosa, que valoriza a herança, a raridade e a arte da relojoaria acima do hype momentâneo.

No fim, a evolução do colecionismo de relógios entre celebridades reflete uma sofisticação do próprio conceito de status. A posse já não é o bastante. O que importa é o acesso, o conhecimento para identificar o raro e a influência para comissionar o impossível. O tempo, nesses pulsos, é contado não em horas e minutos, mas em marcos de carreira, narrativas pessoais e um lugar na história cultural que poucos podem reivindicar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast