A Antártida iniciou seu processo de glaciação muito antes do que os modelos climáticos tradicionais sugeriam, desafiando a compreensão sobre a evolução térmica do planeta. Uma pesquisa internacional publicada na revista Science aponta que lentas ondas originadas no manto terrestre elevaram o relevo do continente por milhões de anos, criando as condições topográficas necessárias para a retenção permanente de gelo, mesmo em um período em que a Terra era cerca de 5 °C mais quente que hoje.

O trabalho, que reuniu pesquisadores de instituições como as universidades de Southampton, Durham e o centro GFZ Helmholtz, desloca o foco da análise climatológica: o congelamento não foi apenas uma resposta aos níveis atmosféricos de CO2, mas o resultado direto de uma transformação tectônica profunda. A separação do continente africano, iniciada há cerca de 200 milhões de anos, teria desencadeado processos geológicos internos que moldaram a paisagem antártica de forma definitiva.

A mecânica das ondas do manto

O fenômeno das ondas do manto atua como uma força de elevação continental persistente e silenciosa. Ao longo de mais de 100 milhões de anos, essas ondas deslocaram-se sob a crosta antártica, elevando vastas áreas que hoje compõem a topografia oculta sob o gelo. Esse processo é o mesmo responsável pela formação de estruturas geológicas profundas, como os chamados vulcões de diamantes, que trazem materiais do interior da Terra para a superfície através de erupções de alta pressão.

No caso antártico, o efeito não foi explosivo, mas cumulativo. A elevação gradual do terreno permitiu que a região atingisse altitudes críticas. Segundo os modelos computacionais utilizados pela equipe, há 45 milhões de anos, partes significativas da Antártida já haviam superado uma altitude de 2 quilômetros, um marco fundamental para a estabilização do clima regional.

Topografia como motor climático

A relação entre altitude e temperatura é um dos pilares da glaciologia: para cada 100 metros de elevação, a temperatura do ar pode cair cerca de 1 °C. Esse gradiente térmico foi o catalisador que permitiu que a neve se acumulasse sem derreter durante os verões. Uma vez estabelecido o gelo, iniciou-se um ciclo de autorreforço conhecido como efeito albedo, onde a superfície branca reflete a radiação solar, reduzindo ainda mais a temperatura local.

O estudo demonstra que a topografia, muitas vezes negligenciada em modelos de longo prazo, é um fator determinante para a glaciação. A formação das montanhas Gamburtsev, situadas sob o gelo atual, ilustra como o relevo moldou a capacidade do continente de reter frio, funcionando como uma barreira física que alterou o equilíbrio climático de todo o hemisfério sul.

Implicações para a ciência da Terra

As descobertas oferecem uma nova perspectiva para geólogos e climatologistas sobre a interação entre o interior do planeta e sua atmosfera. O fato de processos tectônicos terem precedido mudanças climáticas globais sugere que o histórico de glaciação da Terra é mais complexo do que a simples flutuação de gases de efeito estufa. Para o ecossistema científico, isso significa que a reconstrução de climas passados deve integrar, necessariamente, dados de geofísica profunda.

Para o Brasil e outras nações com interesse estratégico na região antártica, a compreensão detalhada dessa evolução geológica é vital. A estabilidade das camadas de gelo sob condições variadas depende, em última análise, da fundação sobre a qual elas repousam. Entender como a Antártida se tornou o que é hoje é um passo essencial para prever como ela reagirá a mudanças futuras em sua estrutura interna e externa.

O futuro da pesquisa antártica

O que permanece incerto é a extensão total da influência dessas ondas do manto em outras regiões polares e como esse mecanismo geológico pode interagir com o aquecimento global contemporâneo. A capacidade de modelar a evolução do relevo com tal precisão abre portas para que cientistas investiguem se processos semelhantes podem estar ocorrendo em outras partes do globo.

Observar a evolução desses modelos será o próximo desafio da comunidade geocientífica. Enquanto a tecnologia de sensoriamento remoto continua a revelar o que está escondido sob quilômetros de gelo, a ciência se prepara para reescrever partes fundamentais da história climática terrestre, deslocando o olhar do céu para as profundezas do solo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech