Há um fantasma nos livros de Jon Klassen. Às vezes, ele é literal, como a figura translúcida que assombra as páginas de seu novo livro-objeto, The House With Nobody In It. Em outras, é uma presença sentida, um silêncio carregado, a tensão entre o que um personagem diz e o que a imagem denuncia. A obra do autor e ilustrador canadense, recém-laureado com o prestigioso prêmio sueco Astrid Lindgren Memorial Award, opera nesse espaço rarefeito entre a palavra e a ilustração, tratando a criança não como um receptor passivo, mas como um cúmplice inteligente na construção do significado.
Em uma longa conversa com o portal literário Lit Hub, Klassen desvela as engrenagens de seu processo. Seus livros, como o celebrado Eu Quero Meu Chapéu de Volta, são exercícios de contenção e ironia dramática. A premissa de The House With Nobody In It é um exemplo perfeito: um narrador onisciente, com a voz calma de uma meditação guiada, percorre os cômodos de uma casa afirmando que ali “não há ninguém”. O leitor, no entanto, vê claramente o pequeno fantasma que observa tudo. A graça, para a criança, está em saber mais que o narrador. É um jogo de poder sutil e catártico, que valida a perspicácia do pequeno leitor.
A arquitetura do não-dito
O design de seus livros não é um mero adereço; é parte central da narrativa. Klassen revela que a estrutura de seu novo trabalho, com recortes que funcionam como portas entre os cômodos, foi inspirada na mecânica dos primeiros jogos de videogame, como Zelda ou Adventure, do Atari. A ideia de estar na soleira de uma porta, sem ver o que há na sala seguinte, mas sabendo que algo de lá pode vê-lo, gera um tipo de suspense minimalista que é sua marca registrada. “Deixar a fisicalidade do livro fazer grande parte do trabalho foi muito divertido”, afirma ele na entrevista.
Essa abordagem transforma o livro em um objeto com o qual se interage, quase um brinquedo filosófico. As cores sólidas, a ausência de texturas e a diagramação precisa criam um palco onde pequenos gestos — um olhar enviesado de um coelho, a imobilidade de um peixe — ganham um peso dramático imenso. Se o fantasma fosse removido de The House With Nobody In It, o livro se tornaria um enfadonho exercício de apontar objetos. A presença do espectro, visível apenas para o leitor, é o que injeta a história, o humor e a melancolia.
A criança como leitor ideal
Questionado sobre ter filhos e como isso impactou seu trabalho, Klassen é direto: ele não cria os livros para eles, mas a paternidade reafirmou sua convicção de que a infância é um período de experiências tão válidas e complexas quanto a vida adulta. “Eles estão tendo dias reais, tão importantes quanto os meus ou os de qualquer outra pessoa”, reflete. Essa visão reverbera na maneira como ele se recusa a subestimar sua audiência. Seus livros não oferecem lições de moral explícitas, mas abrem espaço para que a criança navegue por sentimentos como culpa, desejo e perda por conta própria.
Essa seriedade é o que o prêmio Astrid Lindgren, o maior da literatura infanto-juvenil, reconhece. Klassen nota que, na Suécia, a literatura para crianças é tratada como uma forma de arte legítima e complexa, sem a necessidade de justificativas. “Você não precisa começar uma palestra sobre seu trabalho com um pequeno prólogo sobre como você realmente pode e deve levar este campo a sério”, diz ele. Os suecos, segundo ele, já entenderam que a infância comporta “complexidade, nuance e tristeza”. Seus livros são a prova material dessa filosofia.
O trabalho de Klassen nos lembra que uma casa vazia nunca está realmente vazia. Ela é preenchida por nossas projeções, medos e, principalmente, pelo olhar de quem a observa. A questão que seus livros deixam no ar não é sobre o que está na página, mas sobre o que significa ser o único a ver o fantasma na sala.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





