Vestígios arqueológicos encontrados na Grotta della Bàsura, no norte da Itália, revelam detalhes inéditos sobre uma expedição realizada há 14.400 anos. O estudo, publicado na revista Quaternary International, descreve como um grupo de cinco indivíduos da cultura Epigravettiana, incluindo crianças, aventurou-se por 400 metros em um ambiente hostil habitado por ursos.

A descoberta ganha relevância científica ao documentar o que pesquisadores consideram a evidência mais antiga da possível presença de um cão domesticado em uma atividade humana desse tipo. A análise das pegadas indica que o animal acompanhava o grupo, possivelmente atuando como protetor em um território ocupado por grandes predadores.

Estratégia de sobrevivência e iluminação

A incursão não foi um ato de curiosidade casual, mas uma operação planejada que exigiu domínio técnico sobre o ambiente subterrâneo. A equipe científica identificou fragmentos de carvão de pinheiro-silvestre, concluindo que os exploradores selecionavam madeira de árvores vivas para fabricar tochas eficientes. Experimentos práticos realizados na própria caverna demonstraram que ramos pequenos, com cerca de 20 a 30 centímetros, ofereciam a luminosidade ideal para navegação sem ofuscar a visão em túneis escuros.

Dinâmica do grupo e comportamento

A organização espacial dos exploradores aponta para uma sofisticação social notável. As pegadas preservadas mostram que o grupo avançava em fila indiana, com o cão posicionado estrategicamente próximo às paredes da caverna. Essa formação maximizava a visibilidade e a segurança do grupo em um espaço confinado. Os pesquisadores estimam que o grupo carregava um suprimento de tochas preparado antecipadamente, prevendo a necessidade de reacender a iluminação ao longo do percurso.

Implicações para a arqueologia comportamental

Este achado desafia noções simplistas sobre a vida pré-histórica, destacando a capacidade de planejamento e gestão de riscos em ambientes subterrâneos. A presença do possível cão domesticado sugere uma relação de interdependência que transcende a caça, estendendo-se à proteção coletiva. Para historiadores e antropólogos, o caso reforça a tese de que a domesticação animal pode ter sido um pilar fundamental para a exploração humana de nichos ecológicos complexos.

O que a jornada nos ensina

Embora a reconstrução da expedição seja robusta, permanecem questões sobre a motivação final da incursão ao Salão dos Mistérios. A natureza exata das atividades realizadas no destino final continua sendo objeto de estudo. A ciência agora se volta para identificar se outros sítios arqueológicos apresentam padrões similares de cooperação interespecífica, o que poderá contribuir para a cronologia da domesticação canina e sua integração social.

O registro arqueológico da Grotta della Bàsura serve como um lembrete da engenhosidade humana em face de condições extremas. A análise detalhada das pegadas e dos resíduos de combustão permite vislumbrar uma sociedade que, longe de ser rudimentar, aplicava conhecimentos técnicos rigorosos para navegar o desconhecido.

*Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital