Em um mundo marcado por transformações aceleradas e crises sobrepostas, a sensação de impotência tornou-se uma companheira constante. Para muitos que se dedicam a causas de justiça social, o cenário de um sistema econômico e político concentrado nas mãos de poucos parece intransponível. Segundo reflexões apresentadas por Yotam Marom em sua obra, essa percepção de que nada pode ser mudado não é apenas uma reação ao poder externo, mas um padrão comportamental internalizado. A militância, muitas vezes, acaba por adotar uma postura de defesa que, embora pareça uma forma de resistência, acaba por limitar a capacidade de ação real.

O problema reside na forma como grupos e movimentos sociais lidam com a ideia de poder. Em vez de buscarem estratégias para influenciar decisões e construir estruturas capazes de desafiar o status quo, muitos se refugiam em espaços seguros e isolados. Essa 'política da impotência' manifesta-se através de uma ambivalência profunda sobre a liderança, uma aversão ao conflito e uma tendência a priorizar a pureza ideológica em detrimento da eficácia política. O resultado é um ciclo onde a margem se torna o lugar de conforto, e a vitória, um objetivo distante e quase temido.

O conforto das margens e o custo da inação

A atração pela marginalidade não é um fenômeno acidental, mas uma resposta psicológica à magnitude dos desafios enfrentados. Quando os oponentes — sejam classes bilionárias ou sistemas políticos sofisticados — possuem recursos desproporcionais, a tentação de se retirar para círculos menores é compreensível. É mais fácil e menos arriscado lutar pequenas batalhas internas, onde o controle é possível, do que enfrentar a complexidade de um sistema global em aquecimento catastrófico.

Essa dinâmica cria um ambiente onde o pertencimento é definido pela exclusão e pela conformidade, em vez de pelo crescimento coletivo. Ao evitar o risco de falhar em grandes projetos, os movimentos acabam por atrofiar sua própria capacidade de impacto. O medo, embora justificado pela violência das estruturas que se deseja transformar, converte-se em um mecanismo que preserva a pequenez, impedindo que o ativismo se converta em uma força política capaz de disputar o futuro.

A armadilha da pureza e a aversão ao poder

Um dos mecanismos mais insidiosos dessa política é a desconfiança em relação a qualquer forma de hierarquia ou estrutura de comando. Sob o pretexto de evitar a corrupção do poder, muitos grupos adotam modelos que, na prática, impedem a organização eficiente. A negação da necessidade de estratégia e de liderança disciplinada acaba por fragilizar os movimentos, tornando-os incapazes de sustentar ações coordenadas a longo prazo.

Além disso, a forma como a identidade é tratada nesses espaços frequentemente se torna redutiva. Ao focar excessivamente no comportamento individual em vez de na transformação sistêmica, os grupos perdem a oportunidade de convidar mais pessoas para a causa. A honestidade sobre problemas internos é frequentemente suprimida por medo de que o inimigo a explore, o que, ironicamente, permite que as tendências destrutivas continuem a prosperar sem o devido enfrentamento estratégico.

Consequências para a ação coletiva

As implicações desse comportamento são profundas, tanto para quem atua na política quanto para as instituições que tentam responder a essas demandas. Quando os movimentos se tornam insulares, a distância entre a retórica radical e a realidade das mudanças necessárias aumenta, gerando um descompasso que desanima potenciais aliados. A política da impotência não atinge apenas quem está dentro do movimento; ela esvazia o potencial de resposta da sociedade civil como um todo.

Para o ecossistema de ativismo, o desafio é reverter esse processo sem cair na armadilha da mera performance. A necessidade de construir alianças, de tolerar o conflito saudável e de assumir a responsabilidade pelo exercício do poder é o único caminho possível. Sem essa transição, o risco é de que o ativismo se torne um fim em si mesmo, um refúgio emocional contra a brutalidade do mundo, em vez de uma ferramenta para transformá-lo.

O horizonte da incerteza

O que resta, diante desse quadro, é a necessidade de uma reavaliação honesta sobre as escolhas feitas diariamente dentro desses espaços de resistência. A incerteza sobre o sucesso é, por si só, um dado da realidade que não pode ser ignorado. A questão central não é se vencer é fácil, mas se estamos dispostos a suportar o custo de tentar, sabendo que as perdas são inevitáveis e que o sistema fará o possível para manter sua posição.

A política de mudança exige, acima de tudo, a superação da paralisia. Se a transformação do mundo depende de movimentos que saibam, de fato, disputar o poder, a pergunta que permanece é se o ativismo atual conseguirá transpor suas próprias barreiras internas antes que a janela de oportunidade se feche. A capacidade de olhar para o que está ao alcance das mãos, e não apenas para o que é incontrolável, define o limite entre a resistência efetiva e a resignação disfarçada.

A responsabilidade de cuidar daquilo que amamos, mesmo em face da violência sistêmica, exige que abandonemos o conforto da impotência. O convite é para que cada um encontre seu papel na construção de veículos mais robustos e corajosos, capazes de sustentar o peso da mudança em um mundo que, cada vez mais, nos empurra para a quietude e o isolamento. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub