A ascensão da inteligência artificial gerou um movimento entre formuladores de políticas públicas que busca reescrever as regras fiscais vigentes. Figuras como a senadora Elizabeth Warren e Mark Cuban defendem intervenções que vão desde a taxação de tokens e poder computacional até fundos específicos para subsidiar trabalhadores deslocados pela tecnologia. A premissa central é que a IA representa uma ruptura tão profunda na economia que as estruturas tributárias tradicionais tornaram-se obsoletas. No entanto, vozes como as de Sam Altman e Vinod Khosla têm argumentado que essa visão ignora a resiliência histórica do sistema fiscal diante de ondas de inovação — e que impostos específicos para IA fariam mais mal do que bem.

O mito da obsolescência fiscal

Historicamente, o sistema tributário tem demonstrado uma capacidade notável de absorver mudanças tecnológicas sem recorrer a medidas de exceção. Desde a invenção do motor de combustão interna até o surgimento do computador pessoal, a economia passou por transformações drásticas, mas a proporção da renda nacional destinada ao capital e ao trabalho manteve-se surpreendentemente estável. A ideia de que a IA causará um desemprego estrutural permanente carece de respaldo empírico robusto neste momento. O mercado de trabalho americano, por exemplo, demonstra uma dinâmica elevada, com dezenas de milhões de contratações e desligamentos anuais, sugerindo que a economia possui mecanismos de adaptação que vão além da mera substituição de postos de trabalho.

O risco de impostos específicos

Impostos direcionados a tokens ou compute funcionariam, na prática, como penalidades ao investimento em inovação. Ao contrário, a evolução tecnológica ao longo dos séculos tem favorecido a transição para bases tributárias mais amplas, como renda e consumo, que são mais eficientes e menos distorcivas. Tentar isolar a IA como uma categoria tributária especial seria um retrocesso. Além disso, a valorização das empresas de tecnologia já se traduz em receitas tributárias através de ganhos de capital e impostos sobre propriedades, como observado em centros de dados que, em locais como o Condado de Loudoun, na Virgínia, contribuíram para aliviar a carga tributária local.

Lições da falha no suporte ao trabalhador

Propostas de fundos financiados pela riqueza gerada pela IA para compensar trabalhadores deslocados enfrentam o mesmo desafio de programas como o Trade Adjustment Assistance (TAA). A dificuldade histórica de provar que uma demissão específica foi causada por uma política comercial — ou, no futuro, por uma ferramenta de IA — gera programas com baixa adesão e ineficiência administrativa. A solução mais prudente não é criar novos mecanismos burocráticos, mas sim fortalecer sistemas já existentes, como o seguro-desemprego, que possuem uma abrangência mais ampla e maior eficácia na proteção do trabalhador durante transições econômicas.

O futuro sob lentes sóbrias

O debate sobre a IA é, sem dúvida, um dos mais complexos da atualidade, misturando entusiasmo legítimo e preocupações justificadas. Contudo, a política fiscal exige sobriedade. A tentação de criar regras específicas para cada nova onda de inovação apenas complica o código tributário e cria distorções que podem prejudicar o crescimento a longo prazo. O desafio para os próximos anos reside em manter princípios de simplicidade e neutralidade, resistindo à pressão política por soluções rápidas.

A questão que permanece é se os formuladores de políticas conseguirão priorizar reformas estruturais mais profundas em detrimento do apelo imediato de uma "taxa sobre a inovação". A história sugere que a inovação beneficia a economia de formas difíceis de prever — e que tributar o progresso de forma isolada raramente produz os resultados esperados. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune